Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
No dia em que a Igreja celebrou a Festa da Apresentação do Senhor, em 2 de fevereiro de 2026 — quando os fiéis contemplam o Menino Deus nos braços de Maria e José — chegou a notícia da páscoa do padre Jesus Hortal Sánchez, aos 98 anos de idade, após 73 anos de profissão religiosa e 64 anos de sacerdócio. A data, marcada pela luz que simboliza Cristo oferecido ao mundo, tornou-se também ocasião de recordar a vida de um homem que, ao longo de décadas, procurou refletir essa mesma claridade por meio da inteligência, da fé e do serviço.
Mergulhada nessa luz, a Igreja celebra anualmente o Dia Mundial da Vida Consagrada, momento em que religiosos e religiosas renovam seus votos e se fortalecem no chamado recebido de Deus. Acreditamos que, neste mesmo dia, padre Jesus Hortal renovou o seu “sim” face a face com Aquele que seguiu, amou e anunciou com fidelidade à vocação recebida.
Um encontro que gerou admiração e gratidão
Tive a alegria de conhecê-lo a partir de minha posse como arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 19 de abril de 2009 embora já o conhecesse pelos comentários ao Código de Direto Canônico e pelos seus livros. Quando aqui cheguei ele já conduzia a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) desde 1995 e permaneceu até 2010, período breve dentro de meu governo pastoral, mas suficiente para constatar, como grão-chanceler da instituição, sua dedicação e protagonismo à frente da universidade.
Foram vários encontros para conhecer os prédios da PUC-Rio, os diretores de departamentos, participar de celebrações na Igreja do Sagrado Coração de Jesus e acompanhar momentos institucionais significativos além dos encontros para os despachos acadêmicos em meu gabinete no Edifício São João Paulo II, que logo depois também a utilização dos meios eletrônico facilitou em muito as várias consultas. Entre os vários momentos, recordo de modo especial a homenagem recebida no Theatro Municipal, em 6 de agosto de 2010, pelos seus 15 anos à frente da reitoria da PUC-Rio, ocasião marcada pela apresentação da Orquestra Sinfônica Brasileira e do pianista Nelson Freire, com renda destinada à Pastoral do Menor.
Herdeiro de uma tradição missionária e educacional
Padre Jesus Hortal pertence a uma linhagem de filhos de Santo Inácio de Loyola que ajudaram a forjar, sobretudo na catequese, educação e evangelização, a história da Igreja no Brasil. Insere-se na tradição missionária inaugurada pelo padre Manuel da Nóbrega, pelo apóstolo São José de Anchieta, pelo vigor intelectual do padre Antônio Vieira e, de modo particular, pelo padre Leonel Franca, primeiro reitor da universidade católica sonhada e fundada pelo Cardeal Sebastião Leme e que se tornou a primeira pontifícia do país.
Formação sólida e vocação luminosa
Nascido em 14 de fevereiro de 1927, em Figueras, na província de Gerona, Espanha, filho de Gabriel Hortal Aparicio e Luisa Sánchez Reyes, ingressou na Companhia de Jesus, onde consolidou uma vocação marcada pelo rigor intelectual e pela profunda sensibilidade pastoral.
Possuía sólida formação acadêmica, com licenciatura em Direito pela Universidade de Salamanca (1944-1949), estudos filosóficos realizados entre San Cugat del Vallés e a Universidade Pontifícia de Comillas, doutorado em Filosofia pela Universidade Nacional de Santo Tomás, na República Dominicana, licenciatura em Teologia em São Leopoldo (RS) e doutorado em Direito Canônico pela Universidade Gregoriana de Roma (1964-1967).
Foi ordenado diácono em 12 de setembro de 1961 e presbítero em 7 de dezembro (coincide com o mesmo dia de minha ordenação) do mesmo ano, ambos os sacramentos conferidos pelo arcebispo metropolitano de Porto Alegre, Dom Vicente Scherer, em São Leopoldo (RS).
A partir de então, iniciou um fecundo ministério que uniu ensino, produção acadêmica e serviço eclesial.
O maior canonista de uma geração
Reconhecido como um dos maiores nomes do Direito Canônico em sua época, especialmente no período posterior à reforma do Código de 1983, padre Jesus Hortal exerceu influência decisiva na recepção e na compreensão da legislação eclesiástica no Brasil. Seu trabalho mais expressivo foi a tradução e a elaboração dos comentários da edição oficial em língua portuguesa do Código de Direito Canônico, referência utilizada no país até a atualização promovida em 2022, após diversas modificações introduzidas durante o pontificado do Papa Francisco. Por décadas, essa edição foi instrumento fundamental para a formação de sacerdotes, canonistas e estudiosos, evidenciando a autoridade intelectual do jesuíta e sua contribuição duradoura para a Igreja.
O mestre que tornava simples o que era profundo
Dotado de sabedoria notável e vasto conhecimento, possuía uma característica que o tornava ainda mais admirado: a capacidade de ensinar temas complexos de maneira simples e acessível. Falava com a mesma clareza tanto ao povo mais humilde quanto àqueles que se dedicavam a estudos avançados, sem jamais reduzir a profundidade do conteúdo. Seu método pedagógico era marcado também pelo bom humor e pela criatividade. Estudantes recordam que recorria frequentemente a comparações simples para facilitar a compreensão de conceitos teológicos e jurídicos; ao explicar o caráter indelével do Batismo, afirmava: “Uma vez batizado, sempre batizado, assim como uma vez Flamengo, sempre Flamengo”. A analogia provocava risos imediatos, mas ajudava os alunos a fixar o ensinamento — expressão de uma pedagogia que unia leveza e profundidade.
Jesuíta autêntico e construtor de pontes
Além da excelência no Direito Canônico, destacou-se pela fidelidade à própria vocação jesuíta, sendo frequentemente descrito como um verdadeiro filho de Santo Inácio, alguém que procurava fazer tudo para a maior glória de Deus. Essa espiritualidade traduzia-se em uma vida coerente, marcada pela disciplina intelectual, pela disponibilidade ao serviço e pela busca constante do diálogo. Realizou um trabalho significativo na promoção do diálogo judaico-cristão, sendo muito estimado pela comunidade judaica do Rio de Janeiro; fluente em hebraico, construiu pontes de respeito e cooperação, testemunhando que a fé autêntica se abre sempre ao encontro. Tive ocasião de participar de vários eventos junto com Ele e com os irmãos judeus, tanto na PUC como em Sinagogas. No campo intelectual, foi membro imortal do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, sinal do reconhecimento público de sua estatura acadêmica.
Educador que marcou instituições
Educador por excelência, exerceu o magistério em diversas instituições, entre elas a Universidade Católica de Goiás, a Faculdade de Teologia do Colégio Cristo Rei e a Unisinos, em São Leopoldo, além da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde também dirigiu o Instituto de Teologia e Ciências Religiosas.
Mais tarde, tornou-se diretor do Departamento de Teologia da PUC-Rio e assumiu a vice-reitoria acadêmica, culminando com sua nomeação como reitor da universidade entre 1995 e 2010. Sua liderança ajudou a consolidar a instituição como espaço de reflexão crítica, formação humana e serviço à sociedade sempre em unidade com toda a Igreja e com a Arquidiocese. Em 2011, foi chamado a servir como reitor da Universidade Católica de Petrópolis, continuando a missão de formar inteligências e consciências.
Responsabilidade eclesial a serviço da Arquidiocese do Rio
Com atenção às necessidades da Arquidiocese do Rio de Janeiro, manteve convênio para a formação acadêmica dos seminaristas do Seminário Arquidiocesano de São José nos cursos superiores de Filosofia e Teologia. Deu início também à capacitação de agentes da Pastoral da Comunicação (Pascom) por meio de cursos e oficinas voltados à evangelização no ambiente digital e tradicional, além de firmar parceria para a produção do site da Arquidiocese, em 2008 — iniciativa visionária para o tempo que já despontava. Especialista em Direito Canônico, atuou como juiz do Tribunal Eclesiástico Regional e de Apelação do Rio de Janeiro, função para a qual foi nomeado em 1990 e novamente em 2003, e posteriormente como juiz para causas penais do Tribunal Interdiocesano.
Intelectual rigoroso, linguagem acessível
Sua reflexão teológica e jurídica ganhou expressão em obras como Código de Direito Canônico: explicações, notas e índices, Os Sacramentos da Igreja na sua dimensão canônico-pastoral, Dicionário de Direito Canônico, O que Deus uniu e Casamentos que nunca deveriam ter existido. Nesta última, explicava que não se trata de anular um casamento válido, mas de reconhecer que, na origem, faltaram elementos essenciais que tornariam aquela união verdadeira — exemplo de sua capacidade de traduzir questões complexas em linguagem compreensível, sem perder o rigor científico.
Pastor próximo do povo
A vida pastoral também ocupou lugar central em sua trajetória. Como pároco da Paróquia Nossa Senhora das Dores, em Inhaúma, nomeado em 1986, contribuiu decisivamente para a estruturação da comunidade criada em 1978 e, segundo recordações de fiéis, esteve ligado à construção do atual templo. Também serviu como pároco da Paróquia Pessoal São Bonifácio, em Botafogo, dedicada aos católicos de língua alemã.
Mesmo após anos dedicados à vida acadêmica, manteve proximidade com o povo de Deus, celebrando regularmente a missa dominical do meio-dia na Paróquia São José, na Lagoa, onde se tornou figura querida e familiar para muitos. Em 2017, a mesma comunidade celebrou a missa em ação de graças por seus 90 anos, ocasião em que pronunciou palavras reveladoras de sua humildade: “A mim sobra apenas uma palavra: obrigado. Tudo o que disseram sobre mim não é meu. Tudo é graça”.
Fidelidade até os últimos anos
Até 2019, continuou lecionando no Instituto de Direito Canônico da Arquidiocese do Rio de Janeiro, demonstrando admirável vigor intelectual mesmo diante das fragilidades físicas. Ex-alunos recordam que, já com dificuldades de locomoção, as turmas desciam até a biblioteca para que ele pudesse ministrar as aulas — não era o professor que ia até os alunos, mas os alunos que se aproximavam do mestre. Com a chegada da pandemia de Covid-19, transferiu-se para a residência dos jesuítas em São Paulo, onde permaneceu até o fim de sua vida.
Um legado que permanece
Sua trajetória foi amplamente reconhecida por distinções acadêmicas e civis, entre elas o título de Cidadão do Estado do Rio de Janeiro, a Medalha do Pacificador, a Grã-Cruz da Ordem de Afonso X, o Sábio, e o título de Doutor Honoris Causa pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. No exercício da reitoria da PUC-Rio, esteve presente em eventos de relevância nacional e internacional e incentivou projetos sociais voltados a comunidades de baixa renda, programas de alfabetização de adultos e iniciativas culturais, demonstrando que a universidade deve ser espaço de excelência acadêmica e compromisso social. Os trabalhos junto às comunidades carentes foram inúmeros.
Padre Jesus Hortal partiu deixando o testemunho de uma vida plenamente ofertada. Sacerdote fiel, jesuíta enraizado na espiritualidade inaciana, educador apaixonado, canonista respeitado e construtor do diálogo, soube integrar fé e razão com rara harmonia. Sua existência recorda que a verdadeira grandeza nasce do serviço perseverante e silencioso.
Ao elevarmos a Deus nossa ação de graças por sua vida, confiamos que aquele que dedicou tantos anos à formação humana e cristã agora contempla, na plenitude, a Verdade que buscou ensinar. Sua memória permanece como herança luminosa para a Igreja e para a sociedade — sinal de que uma vida entregue ao Evangelho jamais se perde, mas continua a fecundar a história.
Agradeço a sua proximidade e abraço os Jesuítas que entregam esse grande irmão ao Pai e rezo pelo seu repouso eterno, quando contempla Aquele por quem viveu e aquém anunciou neste mundo.
