As preocupações da Igreja no Sul Global referentes à justiça climática foram tema num encontro do Papa Leão XIV com um grupo de líderes empresariais dos setores de energia e minais críticos que operam na América Latina e no Caribe. O grupo foi recebido no Vaticano no último sábado, 24 de janeiro, em audiência com o pontífice, dando sequência a um processo iniciado em 2022.
O encontro com o grupo de líderes empresariais foi o sétimo desse processo, que é liderado pela Iniciativa Construindo Pontes (Building Bridges Initiative), coordenada pela Pontifícia Comissão para a América Latina (PCAL) diante da tensão gerada entre o desenvolvimento econômico que requer minerais essenciais e a demanda por justiça socioclimática como condição para uma vida boa e abundante para todos.
O Papa Francisco orientou essa busca pelo diálogo, iniciativa apoiada pelo então cardeal Robert Prevost na qualidade de presidente da Comissão. Assim, a iniciativa visa construir “pontes de inclusão” com as universidades; “pontes de reconciliação” com sindicatos, câmaras de comércio e comunidades organizadas; e “pontes de fraternidade” com as Conferências Episcopais e eclesiais regionais.
Ameaças e oportunidades
O grupo de empresários pôde compartilhar com o Papa Leão XIV suas perspectivas sobre as ameaças e oportunidades que o setor enfrenta na América Latina e no Caribe. Também puderam discernir juntos o que antecipar, o que promover e o que esperar. De acordo com matéria divulgada em Vatican News, este encontro estava planejado para todo o ano de 2024 e a audiência com o Papa Francisco estava prevista para 24 de janeiro de 2025. Devido às condições de saúde do Pontífice argentino, o encontro teve que ser adiado a pedido do então cardeal Prevost, hoje Papa Leão XIV, com quem foi agendado o encontro realizado no sábado.
Antes da audiência privada com o Papa, os líderes empresariais se reuniram para um café da manhã de trabalho coordenado pela Comissão para a América Latina, durante o qual foram apresentados os progressos alcançados até o momento.
Os encontros anteriores
O método do encontro deste sábado e dos outros organizados pela Iniciativa Construindo Pontes consiste em ouvir sinceramente as necessidades e aspirações do território em relação ao cuidado da Casa comum e ao trabalho digno, seguido do discernimento social comunitário entre os representantes das diferentes organizações territoriais, em conformidade com o magistério social, e da tentativa de iniciar processos para uma transição justa.
Nos últimos cinco anos, já foram realizados seis encontros sinodais entre bispos e diversos atores das Américas: entre bispos e acadêmicos no CELAM em 2022; entre o Papa Francisco e estudantes universitários das Américas, África e Ásia, em 2022 e 2023; novamente entre o Papa Francisco e reitores de universidades da América Latina e do Caribe, em 2023; entre bispos, sindicatos, câmaras de comércio e comunidades organizadas da América Latina e do Caribe, no CELAM, em 2024; entre bispos e reitores universitários da América do Norte, Central e do Sul, bem como da América Ibero-Americana, que também receberam uma videomensagem do Papa Leão XIV, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 2025; entre bispos, sindicatos, câmaras de comércio e comunidades organizadas da América do Norte, Central e do Sul, na sede da Conferência Episcopal dos Estados Unidos (USCCB) em 2025.
A partir desses encontros, surgiu a proposta de que três dos setores que atuam na América Latina e no Caribe pudessem se reunir com o Papa para discutir as necessidades e aspirações apresentadas pelos cardeais à imprensa junto à Santa Sé: “A vida está por um fio” (Celam, 9 de dezembro de 2024) e “Um apelo pela justiça climática e nossa casa comum” (Celam e Fabc, 1º de julho de 2025).
No documento divulgado no ano passado, a Igreja no Sul Global fez um chamado por justiça climática e à conversão ecológica, pedindo transformações e motivando a resistência às falsas soluções. Entre os pedidos, também apresentados na Conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas (COP30), em novembro do ano passado, os cardeais pediram justiça e proteção:
- Justiça: Promover o decrescimento econômico e acabar com os combustíveis fósseis, interrompendo todas as novas infraestruturas e taxando adequadamente aqueles que se beneficiaram deles, inaugurando uma nova era de governança que inclua e priorize as comunidades mais afetadas pelas crises do clima e da natureza.
- Proteção: Defender os povos indígenas e tradicionais, os ecossistemas e as comunidades empobrecidas; reconhecendo a maior vulnerabilidade de mulheres, meninas e novas gerações; e a migração climática como um desafio de justiça e direitos humanos.
Luiz Lopes Jr com informações e fotos de Vatican Media
