Dom Vilson Dias de Oliveira
Bispo Emérito de Limeira (SP)
Neste mês de agosto, no qual a Igreja no Brasil nos convida a meditar sobre o Mês Vocacional, a liturgia do XVIII Domingo do Tempo Comum coloca diante de nossos olhos uma das imagens mais belas e provocadoras do Evangelho: um altar erguido no deserto, onde quem alimenta a multidão é o pouco partilhado pelos mais simples. Jesus acaba de receber a notícia da morte violenta de João Batista. Sentindo o peso do luto, Ele busca o silêncio, mas a multidão o alcança no deserto. Ali, entre homens, mulheres e crianças que não tinham recursos para comprar nada, dá-se a grande revelação do Reino de Deus.
Quando os discípulos propõem uma solução tipicamente mercadológica, sugerindo despedir o povo para que este vá às aldeias comprar comida, Jesus rompe a lógica do consumo e decreta: “Dai-lhes vós mesmos de comer.” Ao olhar para aquele deserto, os discípulos viram apenas escassez, mas Jesus olha para a periferia da sociedade e enxerga nela o germe do Reino. Os cinco pães e dois peixes não vieram dos banquetes dos palácios de Herodes, nem das bolsas dos grandes comerciantes de Jerusalém, vieram da bolsa de quem caminhava a pé, de quem sabia o que era a incerteza do amanhã, de quem conhecia o sabor do suor do próprio rosto.
O Reino de Deus não é construído a partir do topo da pirâmide. A sociedade verdadeiramente sonhada por Deus não nasce das decisões dos grandes conglomerados ou do luxo dos poderosos, mas da solidariedade silenciosa, resistente e generosa das camadas mais populares e periféricas. São as mãos calejadas dos trabalhadores que ensinam à Igreja e ao mundo o verdadeiro significado da palavra partilha.
À luz desta cena do deserto, a Palavra de Deus nos faz um alerta profético e urgente sobre o modo como vivemos a nossa fé e celebramos os nossos ritos sagrados. Vivemos tempos em que a lógica perversa do grande Mercado tenta se infiltrar até mesmo no santuário. Aos poucos, corre-se o risco de transformar a Casa de Deus em uma espécie de shopping center espiritual, onde a fé vira mercadoria, a bênção vira produto e a Santa Missa se reduz a um passeio de domingo, algo que já se pode ver com facilidade em certos “templos” e supostas “catedrais” erguidos para as celebrações com traços do “neopentecostalismo” Brasil afora.
Tal reflexão é extremamente necessária, pois, se a lógica do mercado toma conta da comunidade, a Eucaristia é desfigurada. Onde deveria haver um altar de irmãos, cria-se uma vitrine de ostentação, onde os lugares de destaque parecem reservados àqueles que ostentam roupas de grife e perfumes caros. O irmão mais pobre é constrangido: homens e mulheres em situação de rua, trabalhadores com suas roupas simples e pés cansados olham para dentro de templos opulentos e se sentem intimidados, como se a Casa do Pai não lhes pertencesse. A fé se torna higienizada: foge-se do convívio com a carne sofredora de Cristo para buscar uma religiosidade estética, confortável e distante do cheiro do povo. Mas o Evangelho de hoje grita o contrário!
A celebração do mistério de Deus exige sobriedade, dignidade, fé e, acima de tudo, comunhão. A Santa Missa não é um espetáculo para ser assistido por uma elite, mas o Banquete do Reino, onde o único terno exigido é a veste da caridade e da humildade. Não podemos aceitar uma fé manipulada por investidas comerciais, desvinculadas do prior da Caridade. Isto conduziria o templo a um lugar de exclusão social. Se os nossos ritos não nos abrirem para o abraço ao irmão de rua, se a nossa comunhão no altar não nos fizer combater a injustiça que gera a fome, então a nossa celebração corre o risco de se tornar um teatro social e vazio, pois a dignidade da liturgia não está no luxo das pedras ou no ouro das molduras, mas na verdade dos corações que se reúnem em torno da Mesa, em torno do Altar; está na acolhida fraterna ao que nada tem, no olhar sem preconceito, no abraço da paz que não escolhe classe social.
Neste mês vocacional, onde renovamos o nosso compromisso de cristãos que somos, que o Evangelho da multiplicação dos pães nos desinstale, de modo a rejeitarmos veemente a religiosidade do consumo, cientes de que a Deus não se compra, antes se encontra no Cristo vivo que se doa no Pão e que se revela no irmão. Que aprendamos com o Santo Evangelho a edificar uma Igreja de portas abertas, de modo que nossas comunidades e paróquias sejam lugares onde o pobre se sinta em casa, onde o trabalhador seja respeitado e onde a simplicidade seja a nossa maior beleza. Que cresçamos na valorização e no reconhecimento da força periférica, a qual, mesmo no “pouco”, sabe colocar tudo nas mãos de Deus, confiante de que Ele multiplica e não deixa faltar o arroz e o feijão de cada dia. Que o Senhor purifique a nossa fé, nos afaste de todas as ilusões da ostentação e nos faça, a exemplo dos discípulos no deserto, construtores de um Reino onde ninguém passe fome e onde todos tenham lugar no banquete do Senhor. Amém.
