Páscoa, esplendor de vida e alegria

Estamos em clima de Páscoa. Por isso, continuam as alegrias da Ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo, como um dia único e prolongado, com o encanto e a

grandiosidade deste ponto central da nossa Liturgia e da fé da Igreja. A Páscoa é a festa por excelência, que sintetiza todo o mistério de Cristo, desemboca na sua Ascensão e nos beneficia com a vinda do Espírito Santo.

Qualquer manifestação de júbilo é insuficiente para traduzir o que se passa em nosso íntimo, diante da vitória do Cristo sobre a morte, doando-nos a vida nova, fruto da sua Ressurreição. Através desse gesto salvífico, tudo pode ser transformado dentro de nós, e a partir de nós, até que cheguemos à estatura do homem adulto, à perfeição humana, divinizada pela presença da graça, que Cristo e o Espírito Santo nos garantem, como dom do Pai. (cf. Ef 4,13).

Páscoa é passagem (em hebraico pessah). Historicamente, lembra a saída dos hebreus do Egito, precedida de uma ceia, na qual foi consumido o cordeiro imolado, juntamente com pão sem fermento. O livro do Êxodo assinala que o anjo da destruição passaria, ferindo os primogênitos do Egito, em consequência da recusa de Faraó em libertar o povo eleito. Preservaria, porém, os que tivessem os portais ungidos com o sangue desse cordeiro (cf. Ex 12,1-13).

Para os cristãos, Páscoa é passagem da antiga vida mortal, para a vida imortal e feliz, da vida transitória, para a vida definitiva, graças à imolação de Cristo. Inocente, Ele se entregou por nós, assim como o cordeiro pascal foi imolado. E nós assumimos esta nova Páscoa, em cada Eucaristia, na qual recebemos o Pão ázimo, transformado e transformante. A Eucaristia sacia nossa sede da perfeição, a sede do Infinito, do Transcendente, já a partir desta vida.

Através da ação libertadora e salvífica de Cristo, naquela noite de Páscoa, nós somos ungidos, marcados pelo seu sangue redentor, e por isso o anjo da morte não pode nos tocar. Certamente, ao final de nossa vida biológica, haverá uma separação entre a alma (espiritual) e o corpo (material). Mas será uma situação transitória, pois nada pode destruir a nossa pessoa, a nossa identidade, preservada na alma imortal, que um dia voltará a se reunir ao próprio corpo, pois Cristo, pela fé, nos garante a ressurreição final.

De sua Páscoa nasce um novo povo, um povo redimido, que estava perdido nas sombras da morte, e agora resplandece na luz da glória: o novo Israel, a Igreja. Esta é a Igreja Católica, aquela mesma fundada por Cristo, a “pedra fundamental”, tendo os apóstolos como colunas, e Pedro, como sua continuação visível aqui na terra.

A Páscoa é, também, chegada. São Lucas traça, no seu Evangelho, um caminho, que começa nas águas do Jordão, e vai até Jerusalém, a Cidade Santa. Ali, Cristo consuma a sua obra, no oferecimento da própria vida, sobe aos céus e nos manda o Espírito Santo. Este caminho-missão começa no Batismo e vai até à Eucaristia. É a sua transfiguração, como Ele já havia antecipado no monte Tabor. Daí nascem os Sacramentos, que são gestos pascais, isto é, de transformação. Sinais, que produzem o que significam. Aliás, como sempre afirmo, produzem muito mais do que significam. É sublime a consideração dos Sacramentos dentro deste clima pascal, em que foram instituídos pelo Cristo Senhor.

O Batismo nos enxerta na Morte e Ressurreição de Cristo, que nos chama a florescer e a amadurecer nele, através da personalidade cristã católica, que vamos adquirindo, com o andar do tempo (cf. Rm 6,1-5; 11,16-18). Podemos, assim, tornar-nos testemunhas da vida nova. Esta é a função do apóstolo, como ensina o livro dos Atos, a respeito da eleição de Matias: “É preciso que um deles se junte a nós para testemunhar a ressurreição” (At 1,22). É o Sacramento da Confirmação que nos capacita para o testemunho, contínuo e amadurecido.

A Eucaristia é o mistério central, pelo qual assumimos a Morte e a Ressurreição do Senhor, na expectativa da nossa ressurreição gloriosa e definitiva: “Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em mim jamais terá sede. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,35.54). O Sacramento da Ordem aí está, para perenizar, tornar sempre presente esse Mistério Pascal, pelo poder que faz os ministros agirem na pessoa do Cristo, representando-o através de suas palavras, do seu amor, dos seus gestos salvíficos.

Nasce, também do Cristo pascal, o perdão, sinal da misericórdia que o levou a dar sua vida pela nossa Redenção: “Soprou sobre eles, dizendo-lhes: ‘Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos’” (Jo 20,22-23). Assim como para as enfermidades espirituais, a misericórdia também se inclina para as enfermidades físicas. Todos aqueles que sofrem, que padecem pelos mais diversos males, se fortalecem ao olhar para o Cristo, sofredor mas também glorioso, porque a cruz é o símbolo da vitória final. A Unção dos Enfermos é força de vida, é amparo e fortaleza, é certeza de perdão.

Finalmente, o Sacramento do Matrimônio é o amor humano, transformado pelo amor divino. A aliança que os casais assumem não chega ao fim, pois começa e termina em Deus. Vive da doação mútua, inspirada no mesmo amor de Cristo por sua Igreja (cf. Ef 5,21ss). E sustenta-se na graça que jorra do Coração de Jesus, dilacerado para nosso amor. Tudo isto está impregnado de alegria pascal!

A Páscoa celebra a glória de Jesus, que é seu atributo próprio, enquanto Deus eterno e homem glorificado. A criação lhe dá glória, através do brilho da beleza e do eco da verdade, presentes em todos os seres, porque recebidos de seu Autor. Devemos, também nós, reverberar esta luz, até à nossa glorificação final, na Parusia, quando Cristo virá trazer a vida imortal e feliz a todos os falecidos.

A vitória do Ressuscitado sobre o pecado e a morte é a antecipação daquilo que irá se manifestar na consumação dos tempos, conforme canta o livro do Apocalipse: “O império de nosso Senhor e de seu Cristo estabeleceu-se sobre o mundo, e Ele reinará pelos séculos dos séculos. Graças te damos, Senhor, Deus Dominador, que és e que eras, porque assumiste a plenitude do teu poder real” (Ap 11,15.17). Portanto, louvemos ao Senhor, alegremo-nos e exultemos nele, aleluia!

Tags:

leia também