Da maneira como se apresenta, a páscoa traz hoje as marcas da tradição judaica, com características típicas acrescentadas pela tradição cristã. A páscoa é tida como festa dos judeus, assimilada pelos cristãos.
Olhada superficialmente, pode parecer uma simples celebração religiosa, sem grande significado real.
Na verdade, a páscoa expressa o drama mais profundo da realidade, tanto na sua dimensão cósmica, como na sua dimensão histórica e na simbologia da fé: a luta permanente da vida, que consegue reverter a dinâmica da morte.
A páscoa expressa a convicção otimista de que nesta batalha sem trégua, a vida leva a melhor, e em definitivo, impõe a vitória.
A páscoa celebra o triunfo da vida sobre a morte, justo no momento em que a vida parece sucumbir, e a morte parece vencer.
Nisto está a força simbólica desta celebração, que tem suas origens nos rituais da primavera, depois foi ligada a acontecimentos históricos com a libertação do povo hebreu da servidão do Egito, e por fim foi assumida por Cristo como memória definitiva do seu testemunho de amor.
Se entendemos bem o seu recado, a Páscoa tem uma mensagem adequada em todas as suas dimensões, cósmicas, históricas e místicas.
A Páscoa nos ensina a encontrar caminhos de vida, lá onde os caminhos de morte parecem prevalecer. Aí está o desafio. E aí está a grande pergunta: as crises atuais estão mostrando sinais de superação pascal, ou ainda estamos na sexta-feira do seu agravamento?
A sabedoria da páscoa consiste em perceber a hora oportuna de virar o jogo, inverter a dinâmica perversa, superar os equívocos, e retomar o impulso renovador da vida, a partir das próprias crises.
Celebrar a páscoa em tempos de crise ecológica é despertar a consciência de nossa responsabilidade cósmica, e denunciar a lógica de um sistema econômico baseado na depredação da natureza, no desperdício e na concentração. Para então começar a interromper sua dinâmica e inverter o seu processo, pelo respeito à natureza, pela sobriedade e pela partilha dos bens indispensáveis para todos viverem com dignidade. A páscoa precisa se transformar em primavera de rejuvenescimento do nosso planeta.
Celebrar a páscoa em tempos de crise civilizacional é perceber os desatinos de uma globalização excludente e concentradora, causadora de novas escravidões e explorações. E’ encontrar os caminhos de uma globalização solidária, que recupere valores humanos, e renove as estruturas da sociedade para colocá-las a serviço de todos, sobretudo dos mais pobres e necessitados, implementando políticas públicas que promovam a participação responsável dos seus destinatários.
Celebrar a páscoa em tempos de crise religiosa é acabar com o mercado da fé, e dar um basta à exploração da religiosidade, que transformou as igrejas em novos covis de ladrões, como no templo de Jerusalém. E’ recuperar a autenticidade do Evangelho, que nos ensina a oferecer nossa vida a Deus como dom gratuito de amor aos irmãos, como fez Jesus ao instituir sua páscoa.
Em meio a estas crises, emerge o significado especial da páscoa cristã. A ressurreição de Cristo nos garante que Deus assumiu a causa da vida. Esta alegre certeza reacende a esperança, como aconteceu com os discípulos naquele primeiro dia da semana. Perceberam em si próprios “a força da ressurreição” (Fil 3,10), que lhes dava coragem para levar ao mundo a mensagem do triunfo definitivo da vida sobre todas as tentativas de morte.
Com esta certeza é possível celebrar a festa da páscoa.
