Perdoar sempre com misericórdia! 

Dom Eurico dos Santos Veloso
Arcebispo Emérito de Juiz de Fora (MG) 

 

 

A Palavra de Deus que a liturgia do 24º Domingo do Tempo Comum nos propõe fala do perdão. Apresenta-nos um Deus que ama sem cálculos, sem limites e sem medida; e convida-nos a assumir uma atitude semelhante para com os irmãos que, dia a dia, caminham ao nosso lado. Duas palavras devem mudar a nossa vida: viver a reconciliação e o perdão. Isto porque pertencemos a Jesus, rancor e raiva não podem ter lugar em nosso coração. 

O Evangelho – Mt 18,21-35 – fala-nos de um Deus cheio de bondade e de misericórdia que derrama sobre os seus filhos – de forma total, ilimitada e absoluta – o seu perdão. Os batizados são convidados a descobrir a lógica de Deus e a deixarem que a mesma lógica de perdão e de misericórdia sem limites e sem medida marque a sua relação com os irmãos. 

Pedro, limitando o perdão a “sete vezes”, pensava que isso era suficiente para demonstrar perfeita generosidade. Na Bíblia, sete é o número da perfeição. Jesus, no entanto, responde a Pedro que a perfeição do perdão se encontra em perdoar “setenta vezes sete”. Esta cifra significa que o perdão deve ser sem fim! Se Jesus não limita o perdão recíproco, não podemos limitar o que para Deus é sem limites! Jesus exemplifica, pela parábola, sua proposta de perdão. Misericordiosamente, perdoa totalmente a dívida enorme de seu empregado. Em seguida, contemplamos a atitude oposta e nada misericordiosa do empregado que fora perdoado. Nega-se a perdoar a dívida irrelevante de um companheiro. Os outros viram, ficaram muito tristes e contaram ao patrão (o rei). O rei, furioso, retirou o perdão. Jesus conclui e aplica a parábola: “É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”. 

A primeira leitura – Eclo 27,33-38,9 – deixa claro que a ira e o rancor são sentimentos maus, que não convêm à felicidade e à realização do homem. Mostra como é ilógico esperar o perdão de Deus e recusar-se a perdoar ao irmão; e avisa que a nossa vida nesta terra não pode ser estragada com sentimentos, que só geram infelicidade e sofrimento. A leitura não apenas propõe a superação da lei de Talião – “olho por olho, dente por dente” – mas também mostra que o perdão oferecido ao próximo abre o caminho ao perdão recebido de Deus. O perdão humano e o perdão divino estão interligados. A proposta do autor é como que uma antecipação da oração do pai-nosso e do Sermão da montanha. Rancor e ódio são obstáculos à misericórdia, a qual não se impõe, mas espera ser acolhida. 

Na segunda leitura – Rm 14,7-9 – São Paulo sugere aos cristãos de Roma que a comunidade cristã tem de ser o lugar do amor, do respeito pelo outro, da aceitação das diferenças, do perdão. Ninguém deve desprezar, julgar ou condenar os irmãos que têm perspectivas diferentes. Os seguidores de Jesus devem ter presente que há algo de fundamental que os une a todos: Jesus Cristo, o Senhor. Tudo o resto não tem grande importância. Pertencer a Deus na via e na morte é a proposta do Apóstolo Paulo. Ele procura ajudar a comunidade a superar a desunião – entre os fortes, mais formados na fé, e os fracos, mais legalistas – pois todos pertencemos a Cristo. Conquistados por Ele, esquecemos tudo o que não é importante e cedemos lugar ao bem do próximo. Cristo, que nos reúne e nos une em comunidade, é superior às questões que nos dividem. 

Vivamos a reconciliação plena. Uma comunidade reconciliada não se conforma ao ódio, as intrigas e as tensões. Os valores do Reino de Deus não se coadunam com a mentalidade que incute o ódio. Perdoar não é concordar com a injustiça, mas combate-la, não com as armas, mas com a união da comunidade. Muito cuidado com o discurso de ódio e das divisões. 

Fica para nós hoje o questionamento: o que a Palavra de Deus hoje mudou em nossa vida, em nosso coração em relação à necessidade do perdão sem limites? O que o Evangelho nos impulsiona a viver? Peçamos ao senhor que em nossas comunidades sejam abundantes a caridade, a concórdia e o perdão, que salva e alivia o coração. 

Perdoemos sempre com misericórdia! Vivamos o perdão sem limites e sejamos semeadores da misericórdia e da compaixão! 

 

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