Quando a amizade sustenta a travessia 

Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)

 

Há diálogos que não são apenas troca de palavras. São espaços de abrigo, pequenas clareiras abertas no meio da vida, onde a dor pode descansar sem ser julgada e a esperança respira, ainda que ofegante. O que começou como uma saudação simples — um “bom dia” confiado à intercessão de São Sebastião — transformou-se, pouco a pouco, numa crônica viva sobre amizade, sofrimento, fragilidade e cuidado. 

Tudo acontece nos intervalos do cotidiano: entre um café tomado solitariamente em silêncio, uma noite em vigília, o efeito de um medicamento, uma ida apressada a São Paulo, uma peça de teatro assistida sozinho, a Avenida Paulista tomada por gente anônima, num domingo sob uma garoa insistente. É ali, no ordinário da vida, que a alma se revela. 

Às vezes, a dor aparece sem maquiagem. Não como drama espetacular, mas como cansaço, angústia, alma ferida, tristeza que não passou, silêncio que pede perdão. Não há promessa de cura imediata; pelo contrário, afirma-se com honestidade que há dores que não desaparecem como mágica. Mas algo decisivo acontece quando ela é partilhada: deixa de ser peso solitário e transforma-se em travessia acompanhada. 

A amizade, nesse contexto, não tenta consertar o outro, mas o aceita em suas limitações. Não apressa os processos, não exige inteireza. Respeita o tempo, acolhe o fragmento, sustenta o silêncio. Há uma pedagogia discreta aí: a de quem sabe que amar é cuidar e permanecer, mesmo quando não há palavras eficazes a proclamar, mesmo quando só é possível rezar, escutar ou simplesmente estar. 

O Vendedor de Sonhos, peça teatral inspirada na obra de Augusto Cury, atravessa o diálogo como metáfora e fio condutor. Sonhar, ali, não é negar a dor, mas recusar que ela tenha a última palavra. A vida não é teatro — o que vivemos é real, profundamente real —, mas somos chamados a assumir o protagonismo da própria história, a ressignificar sem falsificar. É um convite delicado, não fingir força, mas também não se render ao desespero. 

As imagens se acumulam com densidade poética: a alma ferida que ainda exala beleza; o inverno que visita a vida em pleno verão; a chuva mansa que cai sobre a terra seca; o abraço que se faz sentir mesmo à distância; a multidão anônima na avenida, onde cada rosto carrega suas buscas silenciosas. Em meio a todas elas, uma certeza se impõe: quando a dor não nos destrói, ela nos ensina uma linguagem mais verdadeira. 

Há também um horizonte espiritual que sustenta tudo: a oração constante, a confiança em Nossa Senhora como Mãe que cuida, a certeza de que Deus não abandona seus filhos, mesmo quando o céu permanece fechado por nuvens que ameaçam chover. Não se trata de discurso piedoso, mas de experiência concreta de amparo. 

No fim, não há conclusão triunfal. Há gratidão. Um “obrigado” simples, que sabe ser insuficiente, mas verdadeiro. Há amor dito sem constrangimento. Há um compromisso renovado: caminhar juntos, respeitando o tempo de Deus, confiando que o sol — ainda que velado — não deixou de brilhar. Essa é, talvez, a forma mais alta de amizade: aquela que, sem alarde, sustenta a travessia. 

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