Dom José Gislon
Bispo de Caxias do Sul (RS)
Estimados irmãos e irmãs em Cristo Jesus! Pela graça de Deus iniciamos a Caminhada Quaresmal em preparação à celebração da Páscoa do Senhor Jesus. Mas não poderemos viver plenamente a Quaresma, como um tempo especial marcado pela graça de Deus, para nos regenerarmos física e espiritualmente, se não abrirmos as portas do coração para deixarmos o amor, a compaixão e a misericórdia de Deus nosso Pai tocarem o nosso coração e curarem as feridas da alma.
A Quaresma também é um tempo para fazermos a experiência de habitar num ângulo do “deserto”, para nos tornarmos mais reflexivos, para deixarmos emergir as perguntas que nos tornam mais humanos, também quando nos atormentam. Esse espaço de regeneração, porém, é também um risco: pode se tornar uma fuga de nós mesmos, e espaço de busca por soluções fáceis e ilusórias. O deserto, nesse sentido, pode se tornar rapidamente um lugar de “tentação”. Aconteceu também com Jesus. Ele viveu a tentação da escolha entre a volta para a sua família, em Nazaré, e o início da missão que o Pai lhe confiara: “anunciar o Reino de Deus e a sua justiça”.
Na vida de fé do cristão, a Quaresma é um tempo especial de conversão, de mudança da mente e do coração, de transformar a própria vida. A mudança acontece quando temos coragem de parar para escutar a dor do próprio coração, libertando-nos da violência que parece hospedar-se em nós, quase de forma genética. Pessoalmente, ou em comunidade, a conversão é necessária e possível. E Deus aprecia os corações contritos que recuperam a própria verdade. Reconhecer os próprios erros é o início do caminho da salvação.
Com as suas lógicas de guerras e de divisões, o mundo se empenha ao máximo para fazer acreditar que a conversão não é possível, porque a mente e o coração seriam duros como a rocha e estariam imunes ao amor, à compaixão e à misericórdia de Deus. É, na verdade, uma grande mentira. Mas corremos o risco de ficar presos nessa visão do mundo e, assim, vamos adiante, caminhando na ilusão de que nada depende de nós: a missão da humanidade seria aquela de adequar-se àquilo que parece imutável, já decidido, escrito e sacramentado pelos acontecimentos.
A missão de Jesus é aquela de acordar as consciências adormecidas, entorpecidas pela lógica do mundo, propagada diariamente. A conversão nos dá a possibilidade de nos encontrar conosco mesmo e de vermos as coisas de um modo diverso. O esplendor da glória de Deus nos permite compreender que a conversão é um ato livre e pessoal.
Podemos abrir a porta da nossa prisão interior somente do lado de dentro, porque a chave somos nós que a temos. A conversão é uma lenta operação de transformação. Uma obra de arte plasmada pela Palavra de salvação do verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Ele forma a Nova Humanidade, n’Ele e em nós. Aquilo que Cristo iniciou, nada e ninguém jamais poderá destruir. Por isso, é importante e necessário tomar uma decisão que envolva mente e coração, para levantar-se e iniciar a caminhada de conversão, proposta pela Quaresma, para recuperarmos a nossa dignidade humana e divina, de filhos e filhas de Deus.
