Quaresma, um convite a despir fantasias 

Dom Itacir Brassiani 
Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)

O tempo festivo dos desfiles, fantasias e diversões que marcam o carnaval brasileiro está terminando. Alguns grupos ainda não enterraram os ossos e insistem em prorrogar este tempo especial, que também tem seu caráter de competição e de faturamento econômico. As comunidades cristãs já puseram o ponto final, reverberando o chamado à conversão. 

Não me parecem razoáveis e evangélicas declarações do tipo “precisamos de Deus, e não de carnaval”. É certo que o carnaval midiático tem seus excessos e passa a impressão de um indulto de “liberou geral”. Isso também ocorre em outras festas, como a Semana Farroupilha e a Oktoberfest, mas não é motivo bastante para considerá-las puro pecado. 

Há quase cinco décadas, o cristianismo progressista do Rio Grande do Sul marca o último dia do carnaval com a Romaria da Terra. Despido de memórias fantasiosas e descrentes de mitos e heróis fabricados, este “desfile” reverencia os líderes populares e suas lutas, em parte inglórias. E cultiva amorosamente as sementes da indispensável esperança. 

“Revolucionário é também saber escolher nossos heróis”, apregoou uma Escola no seu samba-enredo. E nós, peregrinos de esperança, romeiros da terra sem males e contra os males da terra, fazemos nossas escolhas: Sepé Tiaraju, Sérgio Görgen, Dorothy Stang, Pedro Casaldáliga, Luther King, Margarida Alves, Chico Mendes, Roseli Nunes e uma multidão de nomes e rostos, com o mártir Jesus de Nazaré marchando à frente. 

Esta Romaria faz ressoar, a seu modo, o chamado profético com o qual iniciamos a Quaresma (que prepara com intensa dedicação a verdadeira ‘festa da alegria’, a Páscoa de Jesus e nossa): “Rasgai o coração e não as vestes!” (Joel 2,13). Rasguemos as fantasias de poder e de grandeza, de supremacia e machismo, de país cordial, pois não o somos.  

Na nervura cronológica que faz a passagem do Carnaval para a Quaresma, Jesus pede que abandonemos as práticas que atraem luzes, as atitudes postiças que atraem aplausos. Ele pede autocrítica e conversão, inclusive em relação às práticas de piedade tradicionais e tidas em alto valor: o jejum, a esmola e a oração. Deus vê o que está oculto! 

“Ele veio morar entre nós”, lembra o lema da Campanha da Fraternidade. E não veio fantasiado de poder, de saber e de grandeza, mas fez-se um de nós, experimentou o que significa não ter moradia, deu a vida para que os mais pobres tivessem sua dignidade reconhecida e devolvida. Este é o jejum, a esmola e a oração que agradam a Deus. 

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