Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Queridos irmãos e irmãs, estamos celebrando o quarto domingo do Tempo Comum. O Senhor nos convida a celebrar o Mistério da Eucaristia e a repassar-nos os ensinamentos de sua catequese: mistério do Pão e da Palavra! Palavra que ilumina, e Pão que alimenta, cura e sustenta! O convite deste domingo é para os pobres da terra, pois os ricos têm palavras de sobra, que não sustentam nem salvam. Diz o Senhor: “Buscai o Senhor, humildes da terra (…). Deixarei entre vós um punhado de homens humildes e pobres (…). No nome do Senhor porá sua esperança o resto de Israel!”.
A primeira leitura – Sf 2,3; 3,12-13 – apresenta que as lideranças de Israel ficavam discutindo qual seria a melhor aliança: com o Egito ou com a Síria… e esqueciam a Aliança com Javé! Os “pobres da terra”, aqueles que haviam perdido o seu pedaço de terra, apelavam para Javé, seu Deus e Senhor. Os pobres são o Povo de Deus!
Na segunda leitura – 1Cor 1,26-31 – o apóstolo Paulo fundou e organizou a comunidade de Corinto depois de ter sido rejeitado pelos “sábios de Atenas”, homens que passavam o tempo discutindo teorias filosóficas. Cristo, para estes, era insignificante; não valia a pena escutá-lo! Os portuários, habitantes de Corinto, não eram ricos nem santos, mas foram eles que acolheram a Palavra anunciada pelo apóstolo Paulo. Ele falou de um Deus que morreu crucificado como um escravo, mas que ressuscitou e prometeu a vida eterna àqueles que o seguissem pelos caminhos da vida! Quem salva não é a sabedoria dos filósofos, nem a riqueza — quase sempre mal adquirida — dos poderosos, mas a Palavra e o Sangue de Jesus, que nos lavam do pecado e nos restitui a vida divina!
O Evangelho – Mt 5,1-12a – apresenta o Sermão da Montanha, introduzido pela proclamação das bem-aventuranças. Ele é o programa do Reino dos Céus já presente entre nós. As bem-aventuranças constituem as virtudes de Jesus e são, segundo Santo Agostinho, uma regra perfeita de vida cristã. Nelas encontramos valores universais, que podem ser entendidos e acolhidos por todos. As bem-aventuranças são o caminho concreto para a transformação deste mundo em um mundo de fraternidade, justiça e paz.
O Evangelho deste domingo nos traz o Sermão da Montanha. Falar dele em poucas palavras é uma missão bem difícil, pois, quando o contemplo, vejo uma grande lição em cada versículo. Jesus olhou para a multidão, subiu o monte em silêncio e sentou-se. Os discípulos se aproximaram e sentaram-se perto dele. Foi então que Jesus abriu a boca e começou a ensiná-los. Foi uma “aula particular” para os discípulos, e que deve ter sido bem mais extensa do que as poucas linhas que ficaram registradas no Evangelho de Mateus.
Jesus, o Divino Mestre, sobe à montanha e ensina à multidão: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus!”. Bem-aventurados os aflitos, os famintos, os puros de coração e os perseguidos… Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus!
As bem-aventuranças, proclamadas por Jesus no alto da montanha, são o caminho régio da salvação para todos os seus discípulos. Sua leitura é oportuna e necessária. Elas são um espelho no qual podemos verificar se somos ou não de Jesus. Não vivamos embalados no sono de uma suposta infinita misericórdia divina. O amor misericordioso de Jesus é real, mas é sério e exige compromisso.
Jesus revela aos pobres o caminho da salvação: um caminho que renova o homem por dentro, recria-nos à sua imagem e semelhança e faz-nos viver na sua luz, afastando-nos das trevas do pecado e da corrupção. O pecado não é uma teoria nem apenas um nome para algo errado; pecado é a morte da vida divina que o Sangue de Jesus nos restituiu com sua morte na cruz.
Que possamos, a cada dia, viver as bem-aventuranças, sendo verdadeiramente felizes na busca do cumprimento da Palavra de Deus e tornando-nos seus porta-vozes neste mundo.
