Quem é Jesus para você?  

Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR) 

Homilia – Segundo Domingo do Tempo Comum – Ano A 

Quem é Jesus para você?  

Irmãos e irmãs, 

Depois de termos celebrado, no domingo passado, o Batismo do Senhor, a liturgia nos conduz agora ao Segundo Domingo do Tempo Comum. Com isso, deixamos o tempo das grandes manifestações do Natal e entramos na vida pública de Jesus, no cotidiano da sua missão. O Tempo Comum não é um tempo “menor” ou “sem importância”; ao contrário, é o tempo em que aprendemos a seguir o Senhor no dia a dia, na realidade concreta da vida, onde a fé é provada, amadurecida e testemunhada. 

A Palavra de Deus deste domingo nos apresenta, de forma muito clara, quem é Jesus e qual é a missão daqueles que o seguem. Tudo gira em torno do chamado, do testemunho e da identidade de Cristo como o Servo de Deus, o Cordeiro que tira o pecado do mundo. 

Na primeira leitura, retirada do livro do profeta Isaías (Is 49,3.5-6), ouvimos um dos chamados “cânticos do Servo do Senhor”. Esse Servo é escolhido desde o ventre materno, chamado pelo nome, consagrado para uma missão que vai além de um grupo ou de uma nação. Deus diz que não basta restaurar as tribos de Israel: o Servo será “luz das nações”, para que a salvação alcance os confins da terra. Aqui já se revela um traço fundamental da ação de Deus: Ele não se fecha, não se limita, não exclui. O projeto divino é universal. Deus quer salvar a todos, e escolhe instrumentos humanos para que essa luz chegue a todos os povos. 

Essa leitura nos ajuda a compreender que a vocação não é privilégio, mas responsabilidade. Ser escolhido por Deus não é motivo de orgulho, mas de serviço. O Servo existe para que outros tenham vida, para que outros vejam a luz. Essa lógica atravessa toda a Escritura e encontra sua plena realização em Jesus Cristo. 

O salmo responsorial (Sl 39[40]) coloca em nossos lábios uma resposta confiante: “Eis que venho, Senhor, com prazer faço a vossa vontade”. O salmista nos recorda que Deus não se agrada apenas de ritos exteriores, de sacrifícios vazios, mas de um coração disposto a escutar e a obedecer. Fazer a vontade do Senhor é o verdadeiro culto, é a expressão mais autêntica da fé. Esse salmo já prepara o terreno para compreendermos a atitude de Jesus e também o chamado que Ele dirige a cada um de nós. 

Na segunda leitura, São Paulo, escrevendo aos Coríntios (1Cor 1,1-3), inicia sua carta recordando a identidade da comunidade cristã: “santificados em Cristo Jesus, chamados a ser santos”. A santidade, aqui, não é apresentada como algo reservado a poucos, mas como vocação de todos os batizados. Paulo não escreve a uma comunidade perfeita; ao contrário, Corinto era marcada por divisões, conflitos e incoerências. Mesmo assim, ele afirma: vocês são chamados à santidade. Isso nos ensina que a santidade não é ausência de fraquezas, mas resposta fiel à graça de Deus no meio das fragilidades humanas. 

Chegamos, então, ao Evangelho de João (Jo 1,29-34), que é o centro da liturgia deste domingo. João Batista aponta para Jesus e proclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Não se trata apenas de um título bonito ou simbólico. João identifica Jesus como aquele que oferece a própria vida, como o cordeiro pascal, que assume sobre si o pecado da humanidade para libertá-la. Jesus não vem para condenar, mas para salvar; não vem para excluir, mas para reconciliar. 

João Batista tem plena consciência do seu papel: ele não é o Messias, não é a luz, não é o centro. Sua missão é apontar para Cristo e desaparecer, para que Jesus apareça. Esse é um ensinamento profundo para a Igreja e para cada cristão. Toda verdadeira missão cristã é cristocêntrica. Quando o discípulo se coloca no centro, quando busca a si mesmo, quando se apropria da missão, algo está errado. O verdadeiro testemunho cristão é aquele que conduz ao encontro com Jesus, e não consigo mesmo. 

João também afirma: “Eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus”. O testemunho nasce da experiência. João viu, ouviu, experimentou. Não se trata de repetir palavras decoradas, mas de falar daquilo que se viveu. Isso interpela diretamente a nossa fé: somos cristãos apenas de tradição ou somos testemunhas? Falamos de Jesus por hábito ou por experiência pessoal com Ele? 

Neste Segundo Domingo do Tempo Comum, a liturgia nos convida a dar um passo a mais no nosso caminho de fé. Depois de reconhecer quem é Jesus, somos chamados a segui-lo e a testemunhá-lo. Assim como o Servo de Isaías, como João Batista e como a primeira comunidade cristã, também nós somos chamados a ser luz, a apontar para Cristo, a viver de tal modo que outros possam reconhecer o Senhor em nossa vida. 

Isso se concretiza nas pequenas coisas do cotidiano: na fidelidade à oração, na escuta da Palavra, na participação consciente na Eucaristia, no compromisso com a justiça, na caridade com os mais pobres, no perdão oferecido e recebido, na coerência entre fé e vida. Não se trata de grandes discursos, mas de um testemunho silencioso e firme. 

Irmãos e irmãs, ao iniciarmos este Tempo Comum, peçamos a graça de reconhecer Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e de renovar nossa adesão a Ele. Que possamos dizer, com a vida e não apenas com palavras: “Eis que venho, Senhor, com prazer faço a vossa vontade”. Que o Senhor nos conceda a humildade de João Batista, a disponibilidade do Servo e a fidelidade dos verdadeiros discípulos. 

Amém. 

 

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