Quinto Domingo do Tempo Comum 

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) 

 

Celebramos o Quinto Domingo do Tempo Comum. No Evangelho, escutamos algumas frases de Jesus que nos são muito conhecidas que correm o risco de não significar muita coisa: “Vós sois o sal da terra; vós sois a luz do mundo” — diz-nos o Senhor! Pois bem, com unção e humildade, como se as escutássemos pela primeira vez, escutemos, procuremos compreender e acolhamos essas afirmações, para encontrarmos nelas a Vida e vivermos de verdade. 

No Evangelho (Mt 5,13-16), o Senhor fala-nos da nossa responsabilidade perante o mundo: “Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo”. E diz isso a cada um de nós, àqueles que queremos ser seus discípulos. O sal dá sabor aos alimentos, torna-os agradáveis, preserva da corrupção e era, no passado, um símbolo da sabedoria divina. No Antigo Testamento, prescrevia-se que tudo o que se oferecesse a Deus devia estar condimentado com sal (cf. Lv 2,13), para significar o desejo de que a oferenda fosse agradável. 

A luz é a primeira obra da criação (Gn 1,15) e é símbolo do Senhor, do céu e da vida. As trevas, pelo contrário, significam a morte, o inferno, a desordem e o mal. Os discípulos de Cristo são o sal da terra: dão um sentido mais alto a todos os valores humanos, evitam a corrupção e trazem, com as suas palavras, a sabedoria aos homens. São também luz do mundo, que orienta e indica o caminho no meio da escuridão. Quando os cristãos vivem segundo a sua fé e têm um comportamento irrepreensível e simples, brilham como astros no mundo (cf. Fl 2,15), no meio do trabalho e dos seus afazeres, na sua vida normal. 

“Vós sois o sal da terra!” O sal, na Escritura, aparece como o elemento que dá sabor, purifica e conserva, tornando perenes e duradouros os alimentos. Daí a expressão “aliança de sal”, isto é, “uma aliança perene aos olhos do Senhor” (Nm 18,19). Por causa dessa pureza e perenidade, Israel deveria ajuntar sal a toda oferta que fizesse ao Senhor Deus: “Salgarás toda a oblação que ofereceres, e não deixarás de pôr na tua oblação o sal da aliança de teu Deus; a toda a oferenda juntarás sal” (Lv 2,13). 

Pois bem, irmãos caríssimos, vós sois o sal que dá sabor, pureza e conservação ao mundo diante de Deus! Sois a pitadinha de sal que torna o mundo uma oferenda agradável e aceitável ao Senhor! Sois tão pequenos, tão poucos, tão frágeis, tão impotentes, tão tolos! Lembrai-vos da leitura do domingo passado: “Entre vós não há muitos sábios segundo a sabedoria humana, nem muitos poderosos, nem muitos nobres… Deus escolheu o que o mundo considera como estúpido para confundir os fortes; Deus escolheu o que o mundo considera sem importância e desprezado, o que nada é, para reduzir a nada o que é… É graças a ele que estais em Cristo Jesus” (1Cor 1,26-31). 

“Vós sois a luz do mundo!” — que afirmação impressionante! Um só é a luz: aquele que disse de si mesmo: “Eu sou a luz do mundo!” (Jo 8,12). Como pode, então, dizer agora que nós somos luz? Escutemos: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). Eis: se, em Cristo — e somente nele — somos sal da aliança selada na cruz, também somente na sua luz, seguindo os seus passos, tornamo-nos luz. É isso que nos afirma o Apóstolo: “Outrora éreis trevas; agora sois luz no Senhor. Andai como filhos da luz” (Ef 5,8). 

Por nós mesmos, não somos sal, mas insípidos; por nós mesmos, não somos luz, mas trevas densas. Mas, em Cristo, damos sabor ao mundo e somos reflexos da luz do Senhor. Não somos luz por nós mesmos, mas iluminados pela luz de Cristo. 

Somente seremos luz se nos deixarmos iluminar pela luz fulgurante que brota da sua cruz. Que o cristão não busque outro sal nem outra luz, a não ser o Cristo, e Cristo na sua humildade, na sua pobreza, no seu serviço, na sua disponibilidade total em relação ao Pai: “Não julguei saber coisa alguma entre vós, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado” (cf. 1Cor 2,2). Aquilo que passa ao largo da cruz do Senhor, que foge da cruz do Senhor, que procura outro caminho e outra lógica que não a da cruz que conduz à ressurreição, não salga e não ilumina. Portanto, que brilhe a luz de Cristo em nossa vida e em nossas obras! 

Peçamos ao Senhor a graça de sermos sal da terra e luz do mundo. É com a luz de Cristo que nós, cristãos, iluminaremos cidades inteiras, partidos políticos, grupos de empresários, universidades e centros educativos, comércios e estádios de futebol. Onde está um cristão, aí está a luz de Cristo. Mas o cristão precisa ser coerente e estar disposto a dar a vida, se for preciso. 

 

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