Repousemos nosso coração no Senhor Ressuscitado! 

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) 

 

A liturgia deste décimo quarto domingo do Tempo Comum nos coloca diante de um dos ensinamentos mais profundos e consoladores do Evangelho. Na nossa caminhada diária, muitas vezes nos deparamos com o cansaço. É o peso das responsabilidades familiares, as dificuldades financeiras, as enfermidades que batem à nossa porta e, de modo muito particular em nossa sociedade, a dor causada pela violência e pela falta de paz. É nesse cenário humano, marcado por tantas cruzes, que a Palavra de Deus vem ao nosso encontro não para nos oferecer soluções mágicas, mas para nos apontar o verdadeiro lugar de repouso para o nosso coração. 

No Evangelho deste domingo (Mt 11, 25-30), Ele eleva o seu olhar e diz: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25). Precisamos nos perguntar: quem são esses pequeninos que o Senhor tanto exalta? Jesus não está desprezando a inteligência humana ou o estudo, mas está nos advertindo contra o orgulho e a autossuficiência. Os pequeninos são aqueles que, independentemente de sua condição social ou grau de instrução, reconhecem que precisam de Deus. São aqueles corações simples, que vemos tantas vezes em nossas paróquias e comunidades, pessoas que confiam na providência divina diante de tantas vicissitudes. A esses, o Pai revela os mistérios do Seu Reino, porque encontram espaço em corações esvaziados de si mesmos. 

Logo em seguida, o Senhor dirige a todos nós um convite que ressoa há mais de dois mil anos: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Jesus nos chama para perto d’Ele. Como pastor desta porção do povo de Deus, ando por tantas comunidades e vejo no rosto de muitos irmãos o reflexo desse cansaço. São pais de família preocupados com o desemprego, mães que choram pelos filhos perdidos para as drogas ou para a criminalidade, jovens que buscam um sentido para a vida. Recordemos as mensagens do Papa Leão XIV na ilha de Lampedusa neste sábado dia 4 consolando as dores dos migrantes. O Senhor nos diz hoje: não carreguem esse peso sozinhos: “entreguem a mim as suas angústias”. 

Essa atitude mansa e acolhedora de Cristo já havia sido anunciada no Antigo Testamento. Na primeira leitura, do livro do profeta Zacarias, capítulo 9, versículos 9 a 10, o profeta convida o povo à esperança: “Exulta de alegria, filha de Sião, solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém; eis que o teu rei vem a ti, justo e salvador, pobre, montado num jumento, num jumentinho, cria de jumenta” (Zc 9,9). Vejam que contraste maravilhoso. O mundo espera líderes que se imponham pela força, pelas armas, pelo poder econômico. Mas o nosso Rei escolhe a simplicidade. O profeta acrescenta no versículo 10 que este rei “destruirá os carros de guerra” e “anunciará a paz às nações”. Jesus é o Príncipe da Paz. E a verdadeira paz que tanto pedimos para as nossas cidades, para os nossos lares e para o nosso país só será alcançada quando deixarmos que essa mansidão de Cristo governe as nossas atitudes. A violência não se vence com mais violência, mas com a coragem da fraternidade e do perdão. 

É por sabermos que Deus age assim, amparando os mais fracos, que nós rezamos juntos o Salmo 144 (145). O salmista nos recorda que “o Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de misericórdia”. E, de forma muito concreta, afirma que “o Senhor ampara os que caem e endireita os que estão curvados”. Se hoje você se sente curvado pelo peso da vida, saiba que a mão de Deus está estendida para erguê-lo. A graça de Deus não nos isenta das provações, mas nos sustenta para não sucumbirmos a elas. 

Para vivermos essa dinâmica do Reino, no entanto, precisamos de uma mudança interior. O apóstolo São Paulo, na segunda leitura, da Carta aos Romanos, capítulo 8, versículos 9, 11 a 13, nos orienta sobre a necessidade de vivermos no Espírito Santo. Ele escreve de forma muito direta: “Vós não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito, se realmente o Espírito de Deus habita em vós” (Rm 8,9). Viver “segundo a carne”, na linguagem paulina, significa viver fechado no próprio egoísmo, buscando apenas os interesses particulares e os prazeres passageiros que, no fim, nos deixam mais vazios e exaustos. Por outro lado, viver segundo o Espírito é deixar que a força que ressuscitou Jesus dentre os mortos – como diz o versículo 11 – vivifique os nossos corpos e as nossas ações. É o Espírito Santo que nos dá a capacidade de amar, de perdoar e de servir com alegria, rompendo com as cadeias do pecado. 

No Evangelho, compreendemos finalmente a proposta de Jesus: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11,29-30). O jugo era o instrumento colocado sobre os ombros dos animais para puxar o arado. Jesus nos convida a colocar o nosso pescoço no mesmo jugo que Ele. Isso significa que Ele não nos tira a responsabilidade de arar a terra da nossa vida, mas Ele Se coloca ao nosso lado para puxar o arado conosco. Quando caminhamos unidos a Cristo, a cruz não deixa de ser cruz, mas o seu peso se torna suportável porque tem um sentido. O amor dá sentido ao sofrimento. Um sacrifício feito por amor – como o de uma mãe que perde noites de sono por um filho doente – é pesado, mas o amor o torna suave. O fardo de Cristo é a lei do amor, e o amor jamais nos esmaga; ele nos liberta. 

Que ao participarmos da Eucaristia dominical, possamos trazer para o altar todas as nossas fadigas. Deixemos que Jesus renove as nossas esperanças com o Seu Corpo e o Seu Sangue. Aprendamos com o Seu Coração manso e humilde a sermos construtores da paz em nossas famílias e na nossa sociedade. 

Que a Virgem Maria, Nossa Senhora, sob o título da Penha, tão querida em nossa arquidiocese, interceda por todos nós. Que o seu olhar de Mãe acompanhe cada família, os doentes, os idosos e os encarcerados. Que o nosso padroeiro, o mártir São Sebastião, nos inspire a sermos fortes na fé e perseverantes na esperança, para que, sob os braços abertos do Cristo Redentor, possamos construir uma sociedade mais justa e fraterna.  

 

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