Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba (MG)
Nas palavras ternura, acolhimento e compaixão, ao serem colocadas em prática, deixam transparecer um rosto, uma expressão de misericórdia. O mundo, de nossos tempos, precisa ter esse rosto, em vez da ferocidade dos atos de vingança, guerras e intermináveis violências. Dizemos, que Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. Rosto de vida, não de agressividade e provocação de morte.
Podemos também falar que, dentro da contextualização dos direitos, dos deveres, da ética e da estética hodiernos, a misericórdia é uma forma ampliada do exercício da justiça. O Papa Francisco, ao referir-se à misericórdia, estava consciente de que a justiça é pilar para essa prática de compaixão, característica de quem consegue amar de verdade, inclusive na cruz, perdoar os que o condenavam.
A fé em Deus é escolha e condição pessoal para todas as camadas da sociedade, devendo ser revigorada continuamente na opção de cada indivíduo, de coração sensível, a essa dimensão espiritual. Ela é como uma chama indispensável, firme e estável no prosseguimento através do caminho do Senhor. Uma fé que tem o qualificado de falsa, caso não pratique a justiça e nem misericórdia.
Das pessoas munidas e conscientes de fé, ou seja, daquelas que têm fidelidade e vão seriamente ao encontro do Senhor, se exige uma linguagem transparente, que confirme ter coerência nas palavras e na conduta de vida. É um caminho pautado por relacionamentos pessoais e naturais, de imagens expostas, de onde surgem os atos qualificados como jurídicos, seja de justiça ou de injustiça.
Ter rosto de misericórdia é realizar aquilo que fez Jesus. Ele nunca condenou ninguém, e sempre perdoou, mesmo não levando em conta a condição real da pessoa, apesar de dizer para ela: “Vai, e de agora em diante não peques mais” (Jo 8,11). Misericórdia não é conformar-se com o mal e nem viver em conluio com ele, mas ter a identidade do bem e querer o bem para os outros.
Além de outros textos bíblicos, que revelam a misericórdia praticada por Jesus, um deles é impactante, quem é chamado para a missão de proclamar a Palavra, um pecador público, um corrupto, cobrador de impostos, que contribuía para a injustiça social, porque roubava do Império Romano (cf. Mt 9,9). Como rosto da misericórdia, Jesus vê, chama e restaura a vida de quem vive na ociosidade da fé.
