Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) 

 

No primeiro domingo da Quaresma, meditamos sobre as tentações de Jesus. O Senhor, no deserto, lutando contra o diabo, convidava-nos ao combate espiritual, próprio do tempo do deserto quaresmal. Sim, porque é isso que o tempo santo que estamos vivendo deseja ser: tempo de retiro no deserto do coração para combater nossos demônios interiores e, pela oração, pela penitência, pela caridade fraterna, pela escuta da Palavra de Deus e pela reconciliação sacramental, caminharmos para a santa Páscoa. 

Na liturgia deste domingo, ladeado por Moisés e Elias — que também enfrentaram, durante quarenta dias e quarenta noites, o combate no deserto para experimentarem o fulgor da glória de Deus —, Jesus nos mostra qual é a finalidade do nosso caminho quaresmal; Jesus nos revela aonde nos leva nosso combate espiritual. 

Ao olharmos um pouco o contexto do Evangelho da Transfiguração, observamos que Jesus havia anunciado aos seus que “é necessário que o Filho do Homem padeça muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas; é necessário que seja levado à morte e ressuscite ao terceiro dia” (Lc 9,22; cf. Mt 16,21). Ele havia falado também que, se alguém o quisesse seguir, deveria tomar a sua cruz (cf. Mt 16,24). Por outro lado, alguns discípulos esperavam um messias político que vencesse, pela força de um exército dominador, o poder dos romanos, de cujo jugo desejavam ver-se livres. 

Detenhamo-nos um pouco no Tabor do Evangelho hodierno. Ele é prenúncio, uma misteriosa antecipação da ressurreição. Com sua bendita Transfiguração, Jesus deseja preparar os seus para as dores da Paixão — do mesmo modo que a Igreja deseja nos alentar e motivar para as renúncias e observâncias quaresmais. Por isso mesmo, Pedro, Tiago e João — os três que estão no Tabor — são os mesmos que estarão no Jardim das Oliveiras. Por isso também o Evangelho de hoje termina com uma alusão à ressurreição de Jesus dentre os mortos, e o relato da Transfiguração em Lucas afirma que “Jesus falava de sua partida, que iria consumar-se em Jerusalém” (Lc 9,31). 

Eis que Moisés e Elias — a Lei e os Profetas — dão testemunho da Paixão do Senhor: tudo estava no misterioso desígnio de Deus! Após a ressurreição, isso ficará claro: “‘Não era preciso que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse em sua glória?’ E, começando por Moisés e por todos os Profetas, interpretou-lhes, em todas as Escrituras, o que a Ele dizia respeito” (Lc 24,26-27). Eis que mistério: a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias) dão testemunho de Jesus e aparecem iluminados por Ele. Somente nele, na luz da sua cruz e ressurreição, o Antigo Testamento encontra sua plenitude e sua luz! 

A Transfiguração do Senhor é um consolo. De fato, dizia São Leão Magno que “o fim principal da Transfiguração foi desterrar das almas dos discípulos o escândalo da Cruz”; trata-se de uma “gota de mel” no meio dos sofrimentos. A Transfiguração ficou tão gravada na mente dos três apóstolos que estavam com Jesus que, anos mais tarde, São Pedro lembrar-se-ia deste fato na sua segunda epístola: “Este é o meu Filho muito amado, em quem tenho posto todo o meu afeto”“Esta mesma voz, que vinha do céu, nós a ouvimos quando estávamos com Ele no monte santo” (2Pd 1,17-18). 

Ele, Jesus, continua dando-nos consolo — quando necessário — para podermos continuar caminhando e para que nunca desistamos. É preciso que façamos muitos atos de esperança, virtude muito importante para todos os membros desse estado da Igreja que chamamos de “militante”. Somos os que combatem e somos combatidos; a nossa força vem do Senhor, e nele nós esperamos. 

Os discípulos da Transfiguração são os mesmos do Monte das Oliveiras; os da alegria são também os da agonia. É preciso acompanhar o Senhor em suas alegrias e em suas dores. As alegrias preparam-nos para o sofrimento, e o sofrimento por e com Jesus dá-nos alegria. Os discípulos, que estavam desanimados diante do Mistério da Cruz, são consolados por Jesus na Transfiguração e preparados para os acontecimentos vindouros, como, por exemplo, o terrível sofrimento que Ele padecerá no Getsêmani. Vale a pena segui-Lo, certamente. 

Contudo, o Evangelho da Transfiguração nos diz que temos que viver “totalmente no céu e totalmente na terra”. Isso significa que, enquanto temos a cabeça e o coração totalmente em Deus, os nossos pés devem estar bem apoiados na terra. E, tendo os pés em terra firme, em meio às nossas ocupações, não nos esqueçamos do Senhor. “Corações ao alto”, diz o sacerdote em cada Santa Missa. Nós respondemos dizendo que “o nosso coração está em Deus”. Mas o nosso coração está realmente em Deus? Não somente durante a Missa, mas também nos outros momentos, nas vinte e quatro horas do dia. 

 

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