Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
A caminhada quaresmal é um itinerário de conversão que exige de nós coragem e abertura de espírito. No domingo passado, o Espírito nos conduziu ao deserto para, com Cristo, vencermos as tentações do egoísmo e da autossuficiência. Hoje, a liturgia nos convida a uma nova etapa: a subida da montanha. Diz-nos o Evangelho de São Mateus, no capítulo 17: “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou à parte, sobre uma alta montanha” (Mt 17,1). Subir a montanha, na tradição bíblica, nunca é um ato de isolamento egoísta. É o lugar da Aliança, do silêncio que fala e da revelação que transforma. Jesus não sobe sozinho; Ele leva consigo a Igreja, representada naqueles três discípulos. Nesta manhã, Ele nos toma pela mão e nos convida a sair da planície das nossas preocupações imediatas para vislumbrarmos a Sua glória. A Transfiguração não é um parêntese no caminho do Calvário, mas o horizonte que dá sentido a todo sacrifício. É a luz que nos sustenta quando as sombras da cruz parecerem pesadas demais.
A primeira leitura, extraída do Livro do Gênesis – Gn 12,1-4a –, nos apresenta o chamado de Abrão, o nosso pai na fé. A palavra de Deus é um imperativo de movimento: “Sai da tua terra, da tua família e da casa de teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar” (Gn 12,1). Abrão tinha setenta e cinco anos, uma idade em que o ser humano busca segurança e repouso. No entanto, o projeto de Deus pede o despojamento e a confiança absoluta no invisível. Para sermos transfigurados, precisamos, como Abrão, aceitar o êxodo constante. A Quaresma é este tempo favorável para “sair” de nossos hábitos arraigados, de nossas zonas de conforto e das estruturas mentais que nos impedem de crescer na caridade e na escuta do Espírito. Deus não chama Abrão apenas para o seu benefício individual, mas para que ele se torne uma fonte inesgotável de bênção: “Em ti serão abençoadas todas as famílias da terra” (Gn 12,3). Como Igreja que vive e evangeliza nesta imensa metrópole, somos chamados a ser essa presença de bênção. Nossa missão urbana exige que saiamos de nossos muros para ir ao encontro das periferias existenciais, levando a esperança que não decepciona. A fé que não se traduz em saída e em serviço ao próximo corre o risco de tornar-se um museu de tradições sem o sopro da vida divina.
No topo do Tabor – Evangelho Mt 17,1-9 –, ocorre o evento central que hoje contemplamos: “O seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz” (Mt 17,2). Jesus manifesta Sua identidade divina de forma irrefutável. Ao Seu lado, aparecem Moisés e Elias. Ali estão a Lei e os Profetas, as duas grandes colunas da Antiga Aliança, que agora encontram seu cumprimento pleno e definitivo na Pessoa de Jesus Cristo. Ele é a síntese de toda a história da salvação e o sentido último de toda a revelação. Pedro, tomado por um temor que se mistura à alegria profunda, sugere armar três tendas. Ele quer perenizar aquele instante de consolação. “Senhor, é bom ficarmos aqui!” (Mt 17,4), exclama ele. É o desejo humano, tão presente em todos nós, de reter a graça e de evitar o sofrimento que Jesus já havia anunciado como parte necessária de Sua missão. No entanto, a vida cristã não se vive apenas no êxtase da oração ou no conforto espiritual, mas na fidelidade do cotidiano muitas vezes árido.
Enquanto Pedro ainda falava, uma nuvem luminosa os encobriu. A nuvem, na linguagem bíblica, indica a presença invisível, mas real e majestosa de Deus Pai. E da nuvem sai a voz que define para sempre nossa identidade e nossa direção como cristãos: “Este é o meu Filho amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o!” (Mt 17,5). Este é o mandamento definitivo para todo o Povo de Deus: Escutai-O. Escutar o Filho significa segui-Lo no Tabor, mas também acompanhá-Lo com a mesma firmeza até o Calvário. Significa ouvir Suas palavras de misericórdia, Suas exigências de justiça e Seu apelo radical ao amor, inclusive aos inimigos. A transfiguração do mundo, que tanto desejamos, começa necessariamente pela nossa escuta atenta e obediente à Palavra que se fez carne. Sem a escuta do Filho, nossas ações tornam-se ativismo vazio e nossa fé perde a sua força transformadora. Como rezamos no Salmo Responsorial de hoje: “Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, da mesma forma que em vós nós esperamos” Sl 32(33).
A segunda leitura, da Segunda Carta de São Paulo a Timóteo – 2Tm 1,8b-10 –, nos oferece a chave teológica para vivermos essa missão no meio do mundo. O Apóstolo exorta: “Sofre comigo pelo Evangelho, fortificado pelo poder de Deus” (2Tm 1,8b). Paulo nos recorda que a nossa vocação é santa, fruto de um chamado gratuito e eterno. Não fomos chamados por nossos méritos ou capacidades, mas por um desígnio de amor de Deus manifestado em Cristo Jesus antes de todos os tempos. Esta graça, que destruiu a morte e fez brilhar a vida eterna, é o que nos permite enfrentar as noites escuras da nossa história pessoal e social. Vivemos tempos de grandes desafios, de crises éticas e de desigualdades que ferem profundamente a dignidade humana. Diante dessas realidades, poderíamos ser tentados ao desânimo ou ao cinismo. Mas o brilho da Transfiguração nos recorda que o mal e a morte não detêm a última palavra sobre a existência humana, pois Cristo “aniquilou a morte e fez brilhar a vida e a imortalidade pelo Evangelho” (2Tm 1,10).
Quem contemplou o rosto de Deus na oração e na liturgia deve ser capaz de reconhecer esse mesmo rosto nos sofredores, nos doentes e nos esquecidos da sociedade. A beleza contemplada no Tabor deve refletir-se em nossa transparência ética, em nossa dedicação profissional incansável e em nossa capacidade de construir pontes de diálogo. Ser “fortificado pelo poder de Deus” significa ter a coragem de ser um cristão coerente em todas as instâncias, desde a vida familiar até as decisões públicas. Ao ouvirem a voz do Pai, os discípulos caem com o rosto por terra, cheios de um temor reverencial. O mistério de Deus é fascinante, mas também nos confronta com nossa própria fragilidade. Contudo, o Evangelho nos relata um gesto de ternura infinita: “Jesus se aproximou, tocou-os e disse: ‘Levantai-vos e não tenhais medo’” (Mt 17,7).
Este toque de Jesus é a essência da nossa fé. É o toque que cura o coração ferido, que levanta o desanimado e que restaura as forças de quem pensa em desistir. Nesta Eucaristia, o Senhor se aproxima de cada um de nós, com nossas preocupações e nossos desafios por vezes pesados. Ele nos toca através de Sua Palavra e do Sacramento do Altar, e nos repete a mesma ordem encorajadora: “Levantai-vos!”. Não podemos nem devemos ficar parados na montanha. O Tabor é o momento da recarga espiritual para que possamos enfrentar com vigor a luta necessária na planície da vida. Ao erguerem os olhos, os discípulos viram apenas “Jesus sozinho” (Mt 17,8). Ele basta. Ele é o Caminho que devemos trilhar, a Verdade que devemos anunciar e a Vida que desejamos partilhar.
Ao descermos hoje desta celebração para as nossas atividades, levemos conosco o brilho da face de Cristo. Que a nossa vida seja uma tradução viva do Evangelho, escrita com gestos concretos de solidariedade, paciência e paz. Peçamos à Virgem Maria, a Senhora Aparecida, que nos ajude a ser sempre autênticos ouvintes da Palavra de seu Filho. Que Ela nos ensine a caminhar com fé inabalável, mesmo quando o horizonte parecer obscuro, sabendo que a glória da ressurreição já começou a atuar silenciosamente em nós. Que este tempo quaresmal seja, de fato, um período de profunda transfiguração interior, para que cheguemos à Páscoa renovados no amor, na esperança e no compromisso com o Reino de Deus. Que o Senhor abençoe nossa cidade, proteja as nossas famílias e ilumine todos aqueles que se dedicam ao serviço da vida.
