Segundo Domingo do Tempo Comum – Ano A

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) 

Segundo Domingo do Tempo Comum – Ano A 

“Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” 

O Tempo Comum, que a liturgia nos fez iniciar após as celebrações do Natal e do Batismo do Senhor, não é um intervalo sem densidade espiritual. É, antes, o tempo da maturação da fé, o tempo em que o mistério celebrado se transforma em caminho concreto de vida. Neste Segundo Domingo do Tempo Comum, a Palavra de Deus nos convida a olhar para Jesus não apenas como aquele que se manifesta, mas como aquele que assume, de modo definitivo, a missão de salvar, reconciliar e conduzir a humanidade ao Pai. 

A liturgia deste domingo é marcada por uma pergunta silenciosa, mas profunda: quem é Jesus para nós e que lugar Ele ocupa em nossa vida pessoal, em nossa Igreja e na história do mundo? As leituras respondem a essa questão apresentando Cristo como o Servo escolhido, o Cordeiro que carrega o pecado do mundo e o Filho de Deus que inaugura um novo tempo. 

Na primeira leitura, o profeta Isaías (Is 49,3.5-6) apresenta a figura do Servo do Senhor, chamado desde o ventre materno e consagrado para uma missão que supera os limites de Israel. O texto revela um dado essencial da lógica de Deus: Ele escolhe, forma e envia. A eleição não é um privilégio intimista, mas um envio em favor dos outros. O Servo existe para restaurar, reunir, iluminar e salvar. E o próprio Deus afirma que essa missão não pode ser estreita ou exclusiva: ela deve alcançar os confins da terra. 

Esse anúncio profético ilumina a identidade de Jesus. Ele é o Servo por excelência, aquele que assume sobre si o projeto do Pai sem reservas, sem buscar glória pessoal, sem impor-se pela força. A missão de Jesus não se constrói pela lógica do poder, mas pela obediência, pela entrega e pelo amor que vai até o fim. Em um mundo marcado pela busca de reconhecimento, prestígio e domínio, o Servo do Senhor nos apresenta um caminho radicalmente diferente. 

O salmo responsorial (Sl 39[40]) reforça essa atitude interior ao colocar nos lábios do orante uma profissão de fé concreta: “Eis que venho, Senhor, com prazer faço a vossa vontade”. Não se trata de uma obediência forçada, mas de uma adesão livre e amorosa. O salmo deixa claro que Deus não deseja sacrifícios vazios nem práticas religiosas desconectadas da vida. O que agrada ao Senhor é um coração disponível, atento à sua Palavra e disposto a colocá-la em prática. Aqui já se delineia o perfil do verdadeiro discípulo. 

Na segunda leitura, São Paulo, ao escrever aos Coríntios (1Cor 1,1-3), saúda a comunidade como “santificada em Cristo Jesus e chamada a ser santa”. Essa afirmação é particularmente provocadora, pois sabemos que a comunidade de Corinto enfrentava sérios problemas internos: divisões, escândalos morais, disputas e incoerências. Mesmo assim, Paulo não nega a vocação à santidade. Pelo contrário, ele a reafirma. A santidade não é um prêmio para os perfeitos, mas um chamado permanente para os que, apesar de suas limitações, se deixam conduzir pela graça de Deus. 

Esse ponto é fundamental para a vida da Igreja hoje. Em tempos de crise, fragilidades e feridas abertas, somos tentados a desânimo ou ao julgamento. A Palavra, porém, nos recorda que a Igreja continua sendo santa não por mérito humano, mas porque pertence a Cristo. E é justamente nessa pertença que nasce a responsabilidade de conversão contínua, pessoal e comunitária. 

O Evangelho de João (Jo 1,29-34) nos apresenta uma das mais densas confissões de fé do Novo Testamento. João Batista aponta para Jesus e proclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Essa expressão concentra em si toda a missão de Cristo. Jesus é o Cordeiro que assume o pecado, não de forma abstrata, mas concreta, histórica, carregando o peso da violência, da injustiça, da infidelidade e da dor humanas. Ele tira o pecado não por um gesto mágico, mas oferecendo a própria vida, inaugurando uma nova relação entre Deus e a humanidade. 

João Batista, ao fazer essa proclamação, revela também sua profunda maturidade espiritual. Ele sabe quem é e sabe quem não é. Não se coloca no centro, não se apropria da missão, não busca seguidores para si. Sua grandeza está em reconhecer que sua tarefa é preparar, indicar e depois ceder lugar. “Eu vi e dou testemunho”, diz João. O testemunho nasce da contemplação, da escuta e da experiência do Espírito que desce e permanece sobre Jesus. 

Aqui encontramos um ensinamento decisivo para a vida cristã e para o ministério na Igreja: não basta conhecer Jesus de forma teórica; é necessário reconhecê-lo a partir de um encontro real. Só quem “vê” pode testemunhar. Só quem faz experiência do Senhor é capaz de apontá-lo aos outros com credibilidade. A evangelização não se sustenta apenas em estratégias ou discursos, mas em vidas marcadas pela presença de Cristo. 

Neste Segundo Domingo do Tempo Comum, a Palavra nos convida a um deslocamento interior: sair de uma fé superficial para uma fé mais consciente, mais enraizada e mais comprometida. Reconhecer Jesus como Cordeiro de Deus implica aceitar que Ele transforme nossas escolhas, nossos critérios e nosso modo de viver. Implica também assumir que a missão da Igreja não é agradar ao mundo, mas ser sinal de salvação, mesmo quando isso exige renúncia, coerência e fidelidade ao Evangelho. 

Somos chamados, como Igreja, a ser luz para as nações, não pela força do poder ou da imposição, mas pela clareza do testemunho. Em um mundo ferido pelo pecado, pela indiferença e pela perda de sentido, Cristo continua sendo aquele que tira o pecado do mundo. E Ele o faz, hoje, através do testemunho humilde, fiel e perseverante dos seus discípulos. 

Que este Tempo Comum nos ajude a reencontrar o essencial da nossa fé: Cristo no centro, o serviço como caminho e a santidade como vocação. Que, como João Batista, saibamos apontar para o Senhor e dizer, com a vida: Eis o Cordeiro de Deus.  

 

 

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