Semear o Reino de Deus no coração dos homens e mulheres!

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

 

Ao aproximarmo-nos do final deste mês de julho, celebrando o XVII Domingo do Tempo Comum, chegamos ao final de nossas reflexões em torno ao capítulo 13 do Evangelho segundo São Mateus; um capítulo marcado por ricas parábolas, as quais nos trazem à tona elementos muito concretos acerca da Mensagem de Jesus e de si mesmo, sobretudo no que tange ao seu Reino, semeado na Terra do coração de cada fiel católico. Tal capítulo encerra-se com um tríptico teológico de valor inestimável para a eclesiologia contemporânea.

Diante das complexidades sociopolíticas, da polarização ideológica e dos desafios pastorais enfrentados pela Igreja Católica no Brasil, sob a coordenação do episcopado reunido na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a exegese rigorosa deste trecho evangélico oferece princípios doutrinários seguros para evitar dois desvios opostos: o relativismo pastoral e o sectarismo puritano. Vejamos, pois, como se delineia o embasamento bíblico que apesar de diverso em seus três contextos, trata a uma só vez de uma mesma instância: o Reino dos Céus.

A começar pelo “tesouro e a pérola”, pode-se constatar que o Reino dos Céus, distante de adocicadas apreciações puramente históricas, descomprometidas com a Verdade única e absoluta, trata antes de uma prática radicalmente cristocêntrica ao fixar a primazia da Graça e do Reino em meio às vãs ambições deste mundo. No que tange à “rede” lançada ao mar, esta representa de forma perspicaz e definitiva a dimensão da universalidade católica que rejeita quaisquer sombras ou sugestões de falsas doutrinas e erros adversos e desvinculados do Sagrado Magistério. Acerca do “escriba”, cabe resgatar a importância dos exercícios exegéticos e hermenêuticos que, para além de interpretações meramente pessoais, nos asseguram a autenticidade e a perpetuidade da verdadeira Esposa de Cristo, sempre fértil e farta em seu substrato, tal qual pelicano a dar de si aos seus filhinhos

A “radicalidade cristocêntrica” que a exegese nos permite entrever na parábola do “tesouro e da pérola”, a podemos constatar a partir do lavrador e do comerciante que reagem à descoberta do Reino vendendo tudo o que possuem. O desapego dos bens supérfluos aliado à alegria pela “posse” do Reino dos Céus indica que o Reino de Deus exige uma reorientação existencial absoluta e inegociável. Em um sentido teológico, em sua Encíclica Redemptoris Missio (n. 18), São João Paulo II recorda que “o Reino de Deus não é uma doutrina ou um programa… é antes de tudo uma pessoa, que tem o rosto e o nome de Jesus de Nazaré”. Ao aplicar tais perspectivas ao contexto brasileiro, o desafio eclesial primário extrapola a ordem sociológica ou gerencial, encarnando-se mais que tudo pela mística kerygmática – o que é importante frisar, pois, quando grupos eclesiais reduzem a fé a uma pauta ideológica (de esquerda ou de direita), o “tesouro” é substituído pela bijuteria das preferências humanas. É justamente nesta trama em que a CNBB, pelas suas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (DGAE), reafirma continuamente a urgência do encontro pessoal com Jesus Cristo para evitar a secularização interna das comunidades.

A “rede” lançada ao mar a vemos na universalidade e na paciência eclesial, pois a rede quando lançada não seleciona, não separa; ela varre o mar e acolhe “peixes de toda espécie”. O julgamento e a separação ocorrem apenas na praia, a qual representa o fim dos tempos, quando anjos, não pescadores, lançam fora o que não é bom. Este texto é a pedra angular contra o erro em se querer uma Igreja composta exclusivamente por santos e puros, erro que não é novidade de nossos tempos, mas advém de longa data, desde o século IV, quando o Donatismo se insurgia na forma de heresia. Como formulou Santo Agostinho (De Civitate Dei), a Igreja na história é um corpus permixtum (corpo misto), onde o joio e o trigo, os peixes bons e ruins, caminham juntos sob a pedagogia da divina misericórdia. Trazendo tal reflexão para o cenário brasileiro, o episcopado no Brasil enfrenta forte pressão de alas eclesiais que exigem o expurgo de opositores ou a criação de “guetos de pureza doutrinária ou ideológica”. A eclesiologia do Papa Francisco, fundamentada no documento de Aparecida (2007) do CELAM, lembra que a Igreja deve ser uma “casa de portas abertas” e um “hospital de campanha”. A CNBB é chamada a exercer o seu papel profético justamente quando recusa o descarte de irmãos e sustenta a unidade episcopal no meio da diversidade cultural e social do país.

O “escriba” instruído no Reino revela o quanto são indispensáveis os exercícios da exegese e da hermenêutica, sobretudo em tempos de vastas interpretações aleatórias feitas a partir das Sagradas Escrituras. Perito nas Escrituras, convertido ao Reino, o escriba tira do seu tesouro “coisas novas e coisas velhas”, o que sustenta o conceito de “Desenvolvimento Dogmático” elaborado por São John Henry Newman e reafirma o que nos indica o Concílio Ecumênico Vaticano II (Dei Verbum, n. 8): a Tradição apostólica progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo, sem romper com o passado, mas aprofundando-se nele. No mesmo sentido, ao atualizarmos tal reflexão no chão brasileiro, constatamos a necessidade de superar o falso dilema entre “Tradicionalismo estéril” (que rejeita o Vaticano II e as orientações da CNBB) e “Progressismo de ruptura” (que relativiza a fé e a moral católica). A fidelidade ao Magistério exige abraçar a Tradição viva: a riqueza bimilenar dos Doutores da Igreja (as coisas velhas) articulada com as exigências contemporâneas da ecologia integral, da justiça social e da evangelização digital (as coisas novas).

A CNBB, como expressão da colegialidade episcopal cumpre a função de articuladora da missão eclesial no território nacional. O capítulo 13 de São Mateus, do qual vamos nos despedindo neste XVII Domingo, lança balizas para o exercício desse episcopado de comunhão, sobretudo em tempos fortes de polarização ideológica, ceticismo eclesial, tendências neodonatistas, analfabetismo bíblico. Para cada uma destas feridas, a Palavra de Deus contrapõe-se como fonte de cura, tendo Cristo por centro de todas as coisas, sendo Ele o “tesouro” inegociável e pelo qual tudo vale empreender; a “rede” armada de paciência, bondade, mansidão e misericórdia; e o sublime “escriba” que nos conduz em um caminho superior de formação integral no que tange às coisas do alto, às coisas do Céu. Deste modo, é importante frisar a conclusão de que a CNBB não é um partido político nem um órgão de pressão ideológica. Sua atuação social, fundamentada na Doutrina Social da Igreja (DSI), é extensão direta da fé no Reino de Deus. O Magistério episcopal no

Brasil é chamado a falar com clareza profética em defesa da vida (da concepção à morte natural), dos pobres e do meio ambiente, sem se curvar a agendas partidárias contingentes.

Em um país de dimensões continentais, a unidade dos bispos com o Papa e entre si é a maior salvaguarda contra as tentativas de fragmentação. A caridade teologal deve reger o debate eclesial interno. Discordâncias legítimas sobre opções pastorais secundárias não podem ferir a comunhão afetiva e efetiva do corpo episcopal. A pergunta de Jesus aos discípulos — “Compreendestes tudo isso?” — ecoa como um apelo à formação integral do laicato brasileiro. Diante do avanço do analfabetismo funcional-doutrinário e do avanço das seitas, a Igreja no Brasil precisa investir na catequese biblicamente fundamentada e eclesialmente integrada.

Ao navegar pelas águas por vezes turbulentas da sociedade brasileira contemporânea, a Igreja Católica, sob a condução dos seus bispos, deve renovar a sua confiança na força intrínseca da Graça. A pedagogia de Jesus ensina que o Reino cresce não pela força do barulho ou da imposição, mas pela atração fascinante do Tesouro e pela largura de uma Rede que não exclui ninguém da possibilidade do encontro com a Salvação. Que a Igreja no Brasil seja, portanto, o espaço onde a Verdade seja dita na Caridade e onde a diversidade de dons sirva para a edificação do único Corpo de Cristo. Assim seja.

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