Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

Irmãos e irmãs, ao iniciarmos esta Segunda-feira da Semana Santa, a Igreja nos conduz a um clima mais profundo de recolhimento. Já não estamos na aclamação dos ramos; agora, entramos no silêncio dos dias que antecedem diretamente a Paixão. A liturgia de hoje nos apresenta, de modo muito concreto, o amor que se entrega — e, ao mesmo tempo, a incompreensão diante desse amor. 

O Evangelho proclamado, segundo Evangelho de João (cf. Jo 12,1-11), nos leva a Betânia, seis dias antes da Páscoa. Jesus está na casa de Lázaro, aquele que Ele havia ressuscitado. Ali, num ambiente de amizade e intimidade, acontece um gesto inesperado: Maria toma um perfume de nardo puro, de grande valor, unge os pés de Jesus e os enxuga com seus cabelos. E o evangelista observa: “A casa inteira encheu-se com o perfume do bálsamo” (Jo 12,3). 

Este gesto é o que a tradição espiritual chama de “depósito”: Maria derrama tudo, não guarda nada para si. O perfume, caríssimo, é gasto sem medida. Não há cálculo, não há reserva. É um gesto de amor total, gratuito, sem economia. E aqui está o primeiro ponto que nos interpela: diante de Cristo, nós também sabemos nos dar por inteiro? Ou vivemos uma fé calculada, onde oferecemos apenas o que sobra? 

Mas imediatamente surge a voz da crítica. Judas questiona: “Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários para os dar aos pobres?” (Jo 12,5). À primeira vista, parece um argumento justo, até piedoso. Mas o Evangelho revela a verdade: “Ele falou assim, não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão” (Jo 12,6). Aqui está uma denúncia clara: nem toda aparência de caridade é verdadeira. Há discursos que parecem corretos, mas escondem interesses e incoerências. 

Jesus, então, responde: “Deixa-a; ela fez isso em vista do dia da minha sepultura” (Jo 12,7). O gesto de Maria é profético. Sem talvez compreender plenamente, ela antecipa o que está por vir: a morte de Jesus. Enquanto muitos ainda resistem à ideia da cruz, ela, com seu amor, já entra nesse mistério. O perfume derramado é sinal de entrega, mas também anúncio de sepultamento. 

E aqui está o coração deste dia: o verdadeiro amor é aquele que se antecipa, que se entrega antes mesmo de entender tudo, que permanece fiel mesmo quando o caminho aponta para a dor. 

A primeira leitura, do profeta Isaías (cf. Is 42,1-7), nos apresenta o Servo de Deus: “Ele não gritará, não levantará a voz… não quebrará o caniço rachado” (Is 42,2-3). É a figura de um Messias manso, discreto, que não se impõe pela força. Este Servo é Cristo, que caminha resolutamente para a cruz, não com violência, mas com mansidão e fidelidade. 

Irmãos e irmãs, o “depósito” de Maria nos coloca diante de uma decisão concreta nesta Semana Santa. O que nós estamos dispostos a oferecer ao Senhor? Guardamos partes da nossa vida, ou nos entregamos por inteiro? 

É fácil criticar, como Judas. É fácil racionalizar, justificar, adiar. Difícil é amar sem medida, é derramar o perfume da própria vida aos pés de Cristo. 

Além disso, o gesto de Maria “enche a casa com o perfume”. O amor verdadeiro não fica escondido — ele transforma o ambiente, contagia, se espalha. Uma vida entregue a Deus não passa despercebida. 

Entramos, portanto, em dias decisivos. A cruz se aproxima. E a liturgia nos ensina: não basta admirar Jesus; é preciso estar com Ele. Não basta reconhecer seu valor; é preciso entregar-se a Ele. 

Que, nesta Semana Santa, não sejamos como Judas, presos a interesses e aparências, mas como Maria, capazes de um amor gratuito, concreto e total. 

Que também nós possamos fazer o nosso “depósito”: colocar diante do Senhor tudo o que somos, tudo o que temos, sem reservas. Porque, no fim, é isso que Ele fará por nós na cruz: entregar tudo. 

Amém. 

 

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