Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) 

 

No coração da Semana Santa, a liturgia e a riquíssima piedade popular da nossa Igreja nos convidam a parar, a silenciar as nossas inquietações e a contemplar um dos momentos mais comoventes e dilacerantes da Paixão: o Encontro de Jesus com a sua Mãe Santíssima a caminho do Calvário. Caminhamos pelas ruas de nossa cidade acompanhando duas procissões distintas. De um lado, seguimos a imagem do Senhor dos Passos, curvado sob o peso do madeiro; do outro, acompanhamos a imagem de Nossa Senhora das Dores, a Virgem trespassada pela espada do sofrimento. Onde essas duas procissões convergem, dá-se o sagrado encontro. Não há palavras neste instante. Há apenas o cruzamento de olhares entre a dor infinita do Filho que se entrega pela salvação do mundo e a dor indescritível da Mãe que vê o fruto do seu ventre sendo levado ao matadouro. 

Para compreendermos a profundidade deste mistério, precisamos voltar o nosso coração para as Sagradas Escrituras, recordando o que fora profetizado sobre Maria desde os primeiros dias da vida de Jesus. O evangelista São Lucas nos narra a apresentação do Menino no Templo, quando o velho Simeão, movido pelo Espírito Santo, abençoa a Sagrada Família e dirige palavras proféticas, e ao mesmo tempo terríveis, à Virgem Maria: “Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos em Israel, e a ser um sinal de contradição. Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma, para que se revelem os pensamentos de muitos corações” (Lc 2,34-35). 

A espada profetizada por Simeão atinge o seu cume neste encontro na Via Dolorosa. Jesus avança com o rosto desfigurado. O profeta Isaías, na sua visão do Servo Sofredor, descreveu exata e dolorosamente este momento séculos antes: “Ele não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse. Era desprezado e o último dos mortais, homem de dores, acostumado ao sofrimento, como alguém de quem se desvia o rosto; tão desprezado que não o estimávamos. Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e carregou as nossas dores; e nós o reputávamos por um castigado, ferido por Deus e humilhado” (Is 53,2-4). 

Neste cenário de humilhação, onde a multidão grita injúrias e os soldados O empurram rumo à morte, São Lucas nos revela que houve quem se compadecesse: “Seguia-o grande multidão de povo e de mulheres, que batiam no peito e o lamentavam” (Lc 23,27). E no meio dessa multidão, estava a Sua Mãe. Imaginemos o impacto desse encontro. Maria vê o seu Filho, Aquele que ela gerou no seu seio puríssimo, Aquele que ela amamentou e protegeu no exílio do Egito, agora tratado como o pior dos malfeitores. Jesus, exausto, ergue os olhos e vê a sua Mãe. O olhar de Maria não O faz desistir; pelo contrário, infunde-Lhe a força do amor materno para que Ele cumpra até o fim a vontade do Pai. 

É o encontro de dois silêncios que gritam o amor de Deus pela humanidade. A teologia católica nos ensina que, neste exato momento, Maria vive o seu martírio interior. Como nos recorda o grande mestre cisterciense, São Bernardo de Claraval, ao meditar sobre as dores de Maria: “O martírio da Virgem ocorreu na alma. A espada não transpassou a carne de Cristo, mas transpassou a alma de Maria”. A sua dor não é de desespero, mas de uma oblação perfeita. Ela se une incondicionalmente ao sacrifício do Filho. É a verdadeira “com-paixão”, o padecer junto, o carregar espiritualmente o peso daquela mesma cruz. 

Este encontro não ficou congelado na poeira da história de Jerusalém. Ele é um mistério vivo e operante, que continua a se desdobrar nos dias de hoje nas ruas das nossas cidades, nos corredores frios dos nossos hospitais e dentro das nossas próprias casas. Jesus continua a caminhar sob o peso da cruz cada vez que um irmão nosso sofre a violência, a doença, a depressão ou o abandono cruel. E Nossa Senhora das Dores continua a vir ao encontro de seus filhos sofredores para consolá-los. 

Quantas mães hoje, na nossa amada Arquidiocese, refazem diariamente os passos da Virgem Maria? Mães que acompanham o calvário de filhos perdidos para as drogas, filhos enfermos em leitos de dor, filhos aprisionados nas diversas formas de escravidão do nosso tempo. O olhar de Maria neste Sermão do Encontro é um bálsamo sagrado para todas as famílias enlutadas e para todos os corações que carregam fardos pesados demais para suportarem sozinhos. Ela nos ensina, com o seu silêncio majestoso, a não fugir covardemente diante da cruz que a vida nos apresenta. 

A Palavra de Deus nos exorta a não sermos meros espectadores da Paixão. Quando as imagens sagradas se encontram nas praças das nossas paróquias e as lágrimas rolam dos nossos olhos movidos pela devoção, devemos nos perguntar com extrema sinceridade: onde eu estou nesta Via Sacra? Sou como os soldados que empurram, julgam e humilham o meu próximo? Sou como a multidão curiosa que apenas assiste à dor alheia sem mover um dedo para ajudar? Ou sou como Maria, como o Cirineu, como a Verônica, que ousam romper a barreira do medo para aliviar o sofrimento de Cristo presente nos irmãos? 

A verdadeira e frutuosa devoção a Nosso Senhor dos Passos e a Nossa Senhora das Dores exige de nós uma conversão de vida. Não basta chorarmos de emoção nas procissões da Semana Santa se, ao voltarmos para os nossos lares, os nossos corações continuam endurecidos pelo rancor, pela falta de perdão e pelo orgulho implacável nas nossas relações. O encontro transformador que celebramos hoje deve nos impulsionar a promover a cultura do encontro e da paz em nossas próprias famílias, derrubando os muros da indiferença e construindo pontes sólidas de misericórdia. 

Este percurso doloroso caminha inelutavelmente para o seu desfecho no alto do Calvário, onde a nova família dos redimidos será selada. O evangelista São João relata o momento supremo em que o amor atinge o seu ápice de doação: “Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cleofas, e Maria Madalena. Jesus, então, vendo sua mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse à mãe: ‘Mulher, eis aí o teu filho’. Depois disse ao discípulo: ‘Eis aí a tua mãe’. E a partir daquela hora, o discípulo a acolheu em sua casa” (Jo 19,25-27). 

Nestas palavras derradeiras, pronunciadas como um testamento no altar do madeiro, Jesus não deixa a Sua Mãe órfã de afeto, nem deixa a Sua Igreja órfã de mãe. O discípulo amado, representando toda a comunidade dos fiéis e cada um de nós batizados, acolhe Maria em sua casa. Esta é a nossa vocação irrevogável: sermos a casa que acolhe a presença maternal de Maria. Acolhê-la é matricular-se na sua escola de fidelidade. É aprender com ela a virtude da fortaleza, para permanecer de pé junto às cruzes da vida, sem jamais perder a fé na alvorada da ressurreição. 

Que este Sermão do Encontro não termine quando as imagens sagradas retornarem para os seus andores. Que o encontro inefável entre Jesus e Maria continue a ecoar nos nossos corações, inspirando o perdão entre pais e filhos, esposos e esposas, irmãos e vizinhos. Peçamos a intercessão valiosíssima da Virgem Mãe das Dores e do Senhor Bom Jesus dos Passos. Que os nossos encontros diários sejam sempre marcados pela ternura compassiva, pela paciência evangélica e pelo amor incondicional que nos abre as portas da vida eterna. 

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