Dom Lindomar Rocha Mota

Bispo de São Luís de Montes Belos (GO) 

 

Foram tempos difíceis, e continuam sendo! Contraditoriamente nunca se prometeu tanto, e, ainda assim, há no coração do mundo uma espécie de cansaço, como se a humanidade tivesse acordado de infindas noites ruins, com a lembrança confusa e a amargura de ter perdido alguma coisa. 

O nosso tempo acostumou-se a falar em sistemas. Sistema político, sistema financeiro, sistema jurídico, sistema de segurança, sistema religioso. Dá-se a impressão de que há engrenagens ajustadas, pesos e contrapesos, vigilâncias recíprocas, mecanismos capazes de corrigir abusos, punir fraudes, impedir tiranias, conter a avareza, proteger os pobres. Acreditamos nisso, não com inocência absoluta, mas porque a esperança política sempre foi pequena diante das mazelas sociais. 

Agora, entretanto, a política está deixando de ser arte de governo e se transformando em lugar de ressentimentos. Figuras grotescas, excêntricas, brutais ou teatralmente salvadoras sobem ao palco global não apesar de suas deformidades, mas por causa delas. O sujeito moderado está enfraquecido e o prudente parece covarde; o estudioso toa inutilidade e o violento parece autêntico. 

A grosseria virou prova de sinceridade e a mentira, repetida aos gritos, passou a valer mais que a verdade elaborada com paciência.  

Há algo de dickensiano nisso tudo! Não o Dickens dos salões elegantes, mas o das cidades escuras, das crianças cobertas de fuligem, dos patrões satisfeitos com seus lucros. A nossa Coketown já não tem somente chaminés. Tem algoritmos e bolsas de valores histéricas. Tem influencers de luxo, operadores de miséria, profetas de internet, pregadores da prosperidade e do sacrifício sem jamais terem conhecido a fome; políticos que falam de povo sem suportar o povo. 

Os antigos sistemas de peso e contrapeso dependiam de uma virtude impossível de ser automatizada: vergonha e responsabilidade. O juiz precisava temer a injustiça, o político temer a desonra, o banqueiro a ruína; o jornalista precisava temer a mentira, o líder religioso a Deus. Quando a vergonha desaparece, restam os procedimentos. E procedimentos, sozinhos, são frágeis. Carimbam, protocolam, justificam, arquivam. Podem dar forma legal ao abuso, aparência técnica ao saque, linguagem moral à perversidade. 

A política, nesse cenário, torna-se um grande teatro de humilhações recíprocas. O adversário não é alguém a ser vencido, mas destruído  

O judiciário, por sua vez, sofre uma suspeita crescente. Em tempos normais, a justiça é lenta, imperfeita, humana, mas ainda consegue conservar um resto de solenidade. Em tempos difíceis, ela aparece como arena, trincheira, preguiça e dinheiro. Quando o tribunal começa a ser visto como extensão da guerra política e dos interesses econômicos, cada sentença nasce ferida. E, quando a confiança na justiça se rompe, o cidadão passa a sentir que a lei é uma porta secreta que se abre para alguns, fecha-se para outros, e tritura justamente quem não possui advogado caro, sobrenome útil ou padrinho poderoso. 

No mundo das finanças, a crise é ainda mais severa, porque se esconde sob a elegância dos números. O dinheiro se tornou a metafísica vulgar do nosso tempo. Tudo pode ser convertido nele. O pobre vende o tempo; o rico compra o futuro. O endividado já não deve apenas ao banco, deve ao mês seguinte, ao remédio, ao supermercado, ao aluguel, ao filho que cresceu, ao pai que envelheceu, à vida que lhe cobra juros sem contrato. 

Dickens começaria aqui! Com sua crueldade compassiva ele não deixaria o leitor repousar dentro de abstrações. Colocaria diante de nós uma criança com fome, uma mãe exausta, um operário sem nome, um velho descartado, um jovem seduzido por apostas, uma família inteira destruída por uma promessa ilusória de igrejas nascidas ao acaso e pregadoras de uma religião sem misericórdia.  

A religião também atravessa seus tempos difíceis. E aqui convém abandonar a delicadeza frugal. Há fé verdadeira, há santidade escondida, há mães rezando, padres fiéis, gente simples que ainda acende uma vela para não permitir que o mundo apague a última luz. Seria injusto esquecer isso. Mas há também muito comércio sagrado, muito púlpito político, muita liturgia sem conversão, muita palavra de Deus transformada em instrumento de poder por aqueles que confundem o Reino de Deus com a construção do seu reino pessoal. 

O Evangelho, porém, não nasceu para adornar impérios. Nasceu para julgá-los. Sempre que a religião esquece isso, ela se torna parte do problema que deveria denunciar. 

A perda de confiança contemporânea nasce da percepção amarga de que os sistemas existem, mas frequentemente parecem trabalhar para manter a si mesmos, não para servir a humanidade. Em todos os lugares, a instituição corre o risco de preferir a própria conservação à verdade que justificou sua existência. 

O cidadão percebe! Pode não ter vocabulário técnico, pode não ler relatórios, pode não citar filósofos, mas percebe.  

Daí nasce o ressentimento. E o ressentimento é uma força perigosa porque começa como legítima dor e termina como injustiça organizada. O ressentido tem razão em sentir que algo lhe foi roubado. O problema é que, depois de algum tempo, ele aceita qualquer um que lhe prometa vingança. É assim que figuras toscas chegam ao poder. Elas não precisam ser sábias, precisam ser inflamáveis. Precisam encarnar a raiva. Não precisam construir soluções, basta apontar culpados. Em sociedades humilhadas, o demagogo não aparece como acidente, ele é um sintoma. 

Os tempos difíceis são também tempos de linguagem degradada. Palavras densas foram gastas por excesso de uso e falta de verdade. Liberdade virou licença para grosseria, assim como pátria e democracia. Quando as palavras adoecem, o pensamento enfraquece e, quando o pensamento enfraquece, a violência se oferece como alternativa. 

Há ainda a tecnologia, esse grande acelerador de almas cansadas. Ela prometeu aproximar e produziu multidões solitárias, prometeu democratizar a palavra e produziu bolhas de opinião. O humano contemporâneo carrega no bolso uma praça pública, um confessionário, um mercado, um tribunal e uma máquina de apostas. Não é estranho que esteja exausto. O espanto é que ainda consiga amar, rezar, trabalhar, criar filhos, plantar alguma coisa, visitar um doente, perdoar alguém. 

A maior pobreza do nosso tempo, portanto, não é apenas econômica, embora a pobreza econômica continue sendo uma brutalidade concreta. A maior pobreza é a perda de mediações confiáveis. 

Tempos difíceis, sim. Mas os tempos difíceis têm a vantagem de trazer tudo à luz. Em épocas difíceis vê-se quem serve e quem se serve, quem governa e quem explora, quem julga e quem negocia.  

A pergunta decisiva, então, não é se este tempo é difícil. Ele é. Mas o que ainda pode nascer dele? Dickens sabia que a denúncia social sem compaixão vira rancor, e que a compaixão sem denúncia vira sentimentalismo. Nós devemos caminhar entre essas duas vertentes.  

Foram tempos difíceis, são tempos difíceis, serão tempos difíceis, mas a última dignidade está em não aceitar a crueldade como destino, não confundir realismo com rendição, não chamar de normal aquilo que é apenas frequente e não entregar aos cínicos o direito de interpretar o mundo. A realidade está dura, sim. Mas a dureza da realidade não dispensa a ternura da responsabilidade, e foi por isso que, naquele dia, Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, […] chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade (Mt 9,36;10,1). 

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