Dom Antônio Carlos Altieri
Arcebispo Emérito de Passo Fundo (RS)
Embora o tempo pascal seja fixado no calendário litúrgico, o espírito da Páscoa se impõe como pano de fundo por detrás de todo o itinerário litúrgico sacramental da Igreja, que em meio aos variados acontecimentos, segue sua jornada rumo ao Pai. Á luz de tal dimensão, fica para cada cristão católico o convite a uma vigilância contínua e a uma conversão decidida face ao plano da salvação. Haja coração para tanto, a considerar a tentação do desânimo, da desesperança e da falta de fé que por vezes assola a muitos que se perdem no caminho.
Assim foi com aqueles nossos primeiros irmãos que a duras passadas se puseram a caminho de Emaús, fazendo uma jornada que apesar de incrédula, serviu de ocasião para uma das mais belas e enigmáticas manifestações de Jesus, quando de forma sutil se fez caminhante, e pouco a pouco adentrou, mais que a casa, o coração daqueles que o tiveram à Mesa, para um banquete cujo memória se estende por gerações até os dias de hoje.
Fazer menção aos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35) nos coloca em estrita conexão com a solene comemoração que reluz nos meados do ano civil: a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. E mais que nos alinhar à tão grande Solenidade, a referida passagem nos ajuda a resgatar o sentido de uma caminhada por vezes dura e repleta de angústias; uma caminhada feita, muitas vezes, com um coração já endurecido pelas investidas do Mundo e suas mais modernas artimanhas que reduzem a humanidade a um abandono cada vez mais profundo, lá onde a presença do Altíssimo se faz ainda mais importante.
Ao se deparar com a tristeza daqueles discípulos, Jesus, pela pedagogia da Palavra, resgata neles o primor da Paixão, despertando em seus corações o que também desperta em nós a cada visita ao Santíssimo, a cada comunhão bem-feita, a cada oração íntima e meditação profunda, em comunhão com os Santos e a com Igreja. Ele desperta e infunde a inquietude e a ardência da Fé, da Esperança e da Caridade que nos une mais e mais a Ele, tornando nossos corações semelhantes ao d’Ele, configurando-nos cada vez mais ao seu jeito de ser.
Movidos por tal reflexão, seja, pois, o Sagrado Coração de Jesus não apenas uma Solenidade a ser celebrada, mas um retorno profundo e contundente ao amor de Jesus, manifesto desde o mais profundo de seu coração. Voltem-nos para o Senhor e deixemo-nos abrigar em seu âmago, revestindo-nos dos segredos de seu incomensurável amor, na chama de sua Paixão que reergue os caídos, reanima os desanimados e reencaminha os perdidos para assim cantarmos: “Jesus, Jesus de Nazaré, o teu semblante eu quero ter; tal qual és Tu, eu quero ser, Jesus, Jesus de Nazaré”. Viva o Sagrado Coração de Jesus!
