Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Depois do encantamento do tempo litúrgico do Natal, iniciamos a primeira etapa do Tempo Comum, que vai até a terça-feira que antecede a Quarta-feira de Cinzas, com o início da Quaresma. O ordinário na vida da Igreja nos permite iluminar a nossa vida pelo Cristo Ressuscitado!
As leituras que a liturgia deste 2º Domingo do Tempo Comum nos propõe recordam-nos que Deus conta conosco para concretizar o seu projeto de salvação em favor dos homens. Ele nos escolhe, nos chama, nos envia e nos habilita para sermos suas testemunhas no mundo. Não temos o direito de frustrar, com as nossas recusas, o projeto de Deus.
A primeira leitura – Is 49,3.5-6 – traz-nos a história da vocação de um “Servo do Senhor”, escolhido por Deus “desde o seio materno” para ser “luz das nações” e levar a salvação de Deus “até os confins da terra”. Consciente de que Deus o sustenta com a sua força, o Servo dispõe-se a cumprir a missão que lhe é confiada. Quando Deus nos inclui nos seus planos, a nossa resposta só pode ser um “sim” sem reticências. O segundo Cântico do Servo, identificado pela Igreja com o próprio Jesus, mostra que o Servo tem consciência de sua missão profética: reunir e restaurar o povo disperso. Ele é “luz das nações”, isto é, sua missão é universal. Todos somos servos do Senhor, a serviço dos seus planos.
Na segunda leitura – 1Cor 1,1-3 –, Paulo de Tarso lembra aos cristãos da cidade de Corinto que todos são chamados a cumprir a missão que Deus lhes destina. Paulo, chamado por Deus a ser apóstolo de Jesus Cristo, irá anunciar o Evangelho em todo lugar aonde a vida o levar; os coríntios, chamados à santidade, deverão viver de forma coerente com a vida nova que assumiram no dia em que se comprometeram com Jesus e com o Evangelho. A comunidade é chamada e convidada a viver na unidade, na fraternidade e na paz.
No Evangelho – Jo 1,29-34 –, João Batista apresenta Jesus: Ele é “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, o “Filho de Deus”, que possui a plenitude do Espírito e que vem batizar os homens no Espírito. Jesus recebeu do Pai a missão de oferecer aos homens a vida nova de Deus e irá cumpri-la com absoluta fidelidade. Nós, os que nos aproximamos de Jesus e decidimos segui-Lo, continuamos a obra de Jesus: somos enviados a levar ao mundo a salvação de Deus.
João Batista se apresenta como precursor, enviado por Deus para dar testemunho do Messias. A seu exemplo, todo evangelizador é convidado a dar testemunho de Jesus e não a se promover à custa do Evangelho.
João Batista é o fiador da novidade trazida por Jesus: “Eu vi e dou testemunho” (Jo 1,34). O profeta, iluminado pelo Divino Espírito Santo, compreende o alcance da surpreendente novidade trazida pelo Mestre: não é o ser humano que faz ofertas a Deus, mas é Deus que oferece o seu Filho para a salvação da humanidade.
O testemunho de João Batista é um convite a recomeçar, sempre de novo, o nosso caminho de fé e de discipulado de Jesus. Deus está sempre ao nosso lado, sempre nos surpreende e sempre se mostra solidário conosco.
Importa deixarmo-nos alcançar pela voz do Espírito Santo, que interiormente insiste em nos lembrar: Eis o Cordeiro de Deus que se fez dom por amor.
Jesus é o Messias, mas não vem com o poder deste mundo, como muitos esperavam, e sim como aquele que se confronta radicalmente com tudo o que espalha a maldade.
A Igreja e todos os batizados devem repetir o gesto de São João Batista: mostrar à humanidade o Cordeiro que se opõe às maldades do mundo. Ela não anuncia a si própria, mas anuncia Jesus Cristo. Somente em Cristo encontramos a fonte que liberta e conduz à terra da verdadeira liberdade.
O mundo será redimido quando o Cordeiro for imolado: não mais um animal, mas o Filho Unigênito do Pai, que inaugura, em si mesmo, a Nova e Eterna Aliança. Jesus é o Cordeiro pascal, sacrificado para a salvação de todos. Testemunhemos, com a vida e com gestos concretos, o Ressuscitado e anunciemo-Lo como o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!”.
