“Testemunhas da Esperança” – no sangue dos mártires a Igreja se renova

Dom Lucio Nicoletto 
Bispo da Prelazia de São Felix (MT) 

 

Louvo e agradeço a Deus pelo momento que a nossa Prelazia está vivendo na preparação e na articulação da 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada. São inúmeros os registros de pessoas que estou encontrando nesses últimos tempos e me perguntam com muita simpatia: “Vai ter Romaria esse ano, não vai? Já estamos arrumando as malas!”. Nos olhos e no coração de muitos irmãos e irmãs de caminhada, resplandece o rosto e o coração de uma Igreja que reafirma sua catolicidade como adesão ao projeto de amor e de paz proposto por Jesus Cristo, nas sendas da historia desse nosso mundo. Mas que alegria e esperança perceber que o testemunho do amor vai para além dos confins da Igreja, derramando-se na vida e no compromisso de tantos e tantas que anunciam Jesus Cristo com sua própria vida sem pertencer à Igreja. Reconheço que  a Romaria já não é mais um evento só na Prelazia, mas, ultrapassando os confins de nossa igreja local, se espalha pelo mundo todo, atingindo corações famintos e sedentos de acolhida, compreensão, justiça e paz! 

A Igreja é Mãe e como toda boa mãe, sabe que o amor se expressa em primeiro lugar escutando cada filho que, por ser único, precisa de atenções e linguajar específicos. A Igreja é Mestra e como sábia e experiente educadora, busca apontar caminhos e processos para a superação das necessidades, angústias e aflições humanas. A experiência da Romaria é memoria e compromisso. Memoria de quem lutou por um mundo mais justo a partir da justiça de Deus, diferente da dos homens. Compromisso em atualizar esta luta e seus anseios, respondendo aos reais desafios do momento presente. No entanto, percebo que há muitos que ainda não entenderam ou não conseguiram acolher o espírito da Romaria. Para melhor acolher e enfrentar isso tudo, vale a pena lembrar algumas palavras do saudoso irmão bispo dom Pedro Casaldáliga, uma das raízes mais valiosas [desse sodalício] dessa irmandade: 

 “Eu peço a vocês que não esqueçam os pobres, não esqueçam a opção pelos pobres. Os pobres se concretizam nos povos indígenas, no povo negro, na mulher marginalizada, nos sem terra, nos prisioneiros, e nos muitos filhos e filhas de Deus proibidos de viver com dignidade e liberdade. Não esqueçam o sangue dos mártires. Tem gente, dentro da própria Igreja, que diz que não vale mais a pena lembrar dos mártires. No dia que não valer mais a pena, a gente pode fechar o Novo testamento, porque Jesus foi um mártir… Não percam a Esperança, não desanimem, pois isso é pecado, é heresia. Podem nos tirar tudo, menos a Esperança!”.  

Faz eco ao grande padre da Igreja, Tertuliano: “… o sangue dos mártires é semente de novos cristãos e cristãs!”. Claramente a referencia não tanto na dimensão numérica, mas na dimensão existencial. Somos renovados pelo amor de Cristo, o primeiro dos mártires. Só assim, deixando-nos renovar pelo amor-martirial de Jesus, temos força e fidelidade para levar adiante o seu projeto de amor, o projeto do Reino.  

São 40 anos de caminhada desde que a igreja particular do Vale do Araguaia-Xingu quis honrar a memória do saudoso padre João Bosco Burnier – esse ano comemorando 50 anos de seu martírio, juntamente com o do padre Rodolfo e do Simão Bororo. Veio se criando assim o espaço afetivo e efetivo de um tempo para guardar, cultivar e celebrar a memória de tantos homens e mulheres que ao longo da história da caminhada da igreja e dos povos da América Latina escolheram de testemunhar, até as últimas consequências, os valores do reino e da boa nova de Jesus Cristo. Nessa perspectiva, a Romaria dos Mártires da Caminhada pertence a todos e todas os que se reconhecem e partilham desse projeto de vida plena para todos, pois é próprio de cada batizado e batizada configurar a própria vida e missão à vida de Cristo, fonte de toda a martiria, de amor, justiça e paz. Decorrente dessa dinâmica é a espiritualidade martirial que marca a proposta da Romaria como dimensão espiritual que dá rosto e consistência à nossa presença de discípulos e discípulas de Jesus Cristo. 

Como experiência coletiva e eclesial, ninguém pode se dela para o seu interesse ou ideologia, manipulando este tesouro precioso oferecido por Cristo para outros fins que sejam diferentes do propósito inicial e fundamental. Ou seja, acolher, defender, promover e celebrar a vida em todas as suas expressões. Sabemos que já mudaram muitas coisas em nossa sociedade, em nossa igreja, ao longo da caminhada destes 40 anos de Romarias. Percebemos hoje, mais do que nunca, que precisamos de odres novos para um vinho que é sempre novo, o vinho da esperança, que vem do Evangelho de Cristo e do testemunho dos mártires da caminhada. Às vezes reconhecemos que somos tentados pelos saudosismos de formas de manifestação de nossa fé e compromisso com as causas do reino, que fazem parte de um passado que não existe mais. È compreensível. Mas é da natureza de uma espiritualidade verdadeiramente encarnada aprender a escutar os sinais dos tempos, a partir do chão que pisamos e dos corações que encontramos.  

Faço votos que essa nova jornada de fé, devoção e compromisso em preparação da 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada nos ajude a estreitarmos laços, mais do que criar divisões; a incentivar cada vez mais a lógica do diálogo e do respeito, mais do que a lógica da presunção arrogante e prepotente dentro e fora da igreja, para que possamos juntos, em comunhão, apressar a realização de novos céus e uma nova terra, onde reine o amor, a justiça e a paz que Cristo trouxe para nós com sua martiria pascal.  

Abraços fraternos a todos e todas.

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