Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Nós que vivemos em regiões rurais do interior do Paraná, como Maringá e Toledo, bem sabemos de como o nosso povo que trabalha na agricultura é devoto fiel de São Sebastião que é o padroeiro contra a peste, a fome e a guerra e guia o trabalho de todos os que labutam no campo, na pecuária e na agricultura.
Por isso, ao iniciarmos a Trezena em honra a São Sebastião, somos convidados a renovar nossa fé à luz do testemunho firme e luminoso deste santo mártir, cuja vida permanece como sinal eloquente de fidelidade a Cristo em meio às adversidades. Celebrar São Sebastião é, antes de tudo, reconhecer que o Evangelho exige coerência, coragem e perseverança, sobretudo em tempos marcados por tantas formas de sofrimento, violência e indiferença.
São Sebastião viveu em um contexto hostil à fé cristã, marcado pela perseguição sistemática e pela tentativa de silenciar aqueles que professavam o nome de Cristo. Como soldado do Império Romano, poderia ter escolhido a segurança da acomodação e do silêncio, preservando sua posição e seus privilégios. No entanto, movido por uma fé profunda e amadurecida, preferiu colocar-se ao lado dos irmãos perseguidos, fortalecendo-os na esperança e testemunhando, com a própria vida, sua pertença a Cristo. Seu martírio não foi um ato impulsivo ou fanático, mas a consequência de uma existência vivida em plena coerência com o Evangelho.
Ao longo dos séculos, o povo cristão recorreu à intercessão de São Sebastião, especialmente nos momentos de grandes provações coletivas, como as epidemias, a fome e as guerras. Essa devoção, profundamente enraizada na piedade popular, expressa a confiança de que Deus não abandona seu povo nas horas mais difíceis. Ao invocarmos São Sebastião como protetor contra a peste, a fome e a guerra, reconhecemos que toda forma de sofrimento humano encontra eco no coração misericordioso de Deus, que age também por meio da intercessão dos seus santos.
A Trezena que agora iniciamos é um tempo favorável para a oração, a conversão e o compromisso cristão. Não se trata apenas de pedir graças, mas de permitir que o exemplo de São Sebastião questione nossa própria vivência da fé. Ele nos interpela a perguntar se somos capazes de permanecer fiéis a Cristo quando nossa fé é colocada à prova, quando o Evangelho exige renúncia, quando somos chamados a ir contra a corrente da mentalidade dominante.
Celebrar São Sebastião é também renovar nossa consciência eclesial. A verdadeira devoção não se reduz a práticas externas, mas conduz necessariamente a uma vida transformada pelo Evangelho. Não podemos invocar a proteção do santo e permanecer indiferentes diante da dor dos pobres, dos doentes, dos idosos, das vítimas da violência e de todos aqueles que vivem à margem da sociedade. A fé que São Sebastião testemunhou com o martírio é a mesma fé que hoje nos chama à solidariedade concreta, à promoção da paz e à defesa incondicional da vida.
Neste tempo de Trezena, somos convidados a fortalecer os laços de comunhão em nossas comunidades, a renovar o compromisso com a oração e a redescobrir o valor do testemunho cristão no cotidiano. Que São Sebastião nos ajude a compreender que a fidelidade a Cristo não nos afasta do mundo, mas nos insere nele como sinais de esperança, instrumentos de reconciliação e construtores da paz.
Que esta Trezena seja, para todos nós, um verdadeiro caminho espiritual, capaz de renovar nossa confiança em Deus e de reacender em nossos corações o desejo de uma fé mais autêntica e comprometida. Sustentados pelo exemplo e pela intercessão de São Sebastião, sigamos firmes no caminho do Evangelho, certos de que a fidelidade ao Senhor, mesmo em meio às provações, é sempre fonte de vida nova, de liberdade interior e de verdadeira salvação.
São Sebastião, rogai por nós.
