Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo (RS) 

“O Reino de Deus é como …” Em forma de parábolas Jesus anuncia os mistérios do Reino de Deus. Utiliza-se de imagens e situações da vida cotidiana para mostrar como Deus age, entra na nossa vida e quer guiar-nos pela mão. Numa parábola sempre é necessário reconhecer o ponto central, o não dito, o projeto divino escondido. O Reino de Deus significa o senhorio de Deus e qual é sua vontade para conduzir a vida dos discípulos por este mundo. Neste domingo a liturgia nos oferece as parábolas do trigo e do joio, do grão de mostarda e do fermento (Sabedoria 12,12.16-19, Salmo 85(86) Romanos 8,26-27 e Mateus 13,24-43).

A parábola do trigo e do joio contém muitos ensinamentos. Constatamos e experimentamos em nós, nas pessoas próximas de nós, na Igreja e na sociedade a convivência do bem e do mal. Escândalos, roubos, corrupção e tantos outros males são desvendados todos os dias e em todos os ambientes. Isto mostra que tanto o bem quanto o mal, quando semeados, se desenvolvem e produzem os seus frutos. Portanto, não existe uma pessoa ou instituição perfeita e totalmente pura. Jesus nos ajuda a olhar com realismo a nós mesmos e o mundo. O que não quer dizer conformar-se com o mal, como nos indica o final da parábola onde o joio é queimado.

“O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo”. Semear é uma ação de quem confia na força intrínseca da semente e no campo onde é semeada. O mal que existe não pode ser desculpa, nem motivo de paralisia. Não podemos cultivar uma visão pessimista da vida, das pessoas e do mundo. Os textos bíblicos ensinam que Deus confia nas suas criaturas e na Palavra que propõe. Quem semeia deve semear com abundância, pois quem semeia pouco, também pouco colherá.

A parábola também alerta que “enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora”. A rotina da vida, por vezes, nos torna sonolentos. Não percebemos que as sementes do inimigo vão sendo semeadas no campo da vida. Todas as pessoas e ambientes também são favoráveis para o crescimento do mal. Diversas vezes Jesus alertou sobre a necessidade da vigilância. É preciso ficar atento as sementes do mal que foram semeadas em nós e perceber como estão crescendo e produzindo fruto.

Outro ensinamento da parábola é como erradicar o mal. A sugestão dos lavradores é “arrancar o joio”, mas o dono do campo responde: “Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo”. O joio é uma erva daninha que no início é muito parecida com o trigo; depois, enraíza-se tão bem que, arrancando-a, erradica-se também o trigo. Diante de situações graves que geram comoção na sociedade ou de crimes muitos frequentes a tendência é partir para soluções radicais. Por vezes, estes métodos radicais de eliminar o mal matam inocentes, como atesta a história da humanidade.

A Escritura revela o modo como Deus age e faz justiça. Somos muito impacientes em ver e condenar o mal nos outros e temos dificuldade para ver o mal em nós. O juízo definitivo cabe a Deus. A leitura do livro da Sabedoria diante da pergunta porque Deus não pune os maus, responde: “A tua força é princípio da tua justiça, e o teu domínio sobre todos te faz para com todos indulgente. Mostras a tua força a quem não crê na perfeição do teu poder; […] dominando tua própria força, julgas com clemência e nos governas com grande consideração. […] Assim procedendo, ensinaste ao teu povo que o justo deve ser humano; e a teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores”.

Diante da convivência diária com o mal e o desgosto que nos causa, surge a tentação de sermos juízes e justiceiros. Uma tentação que pode nos tornar desumanos, por isso o livro da Sabedoria alertava que o “justo deve ser humano”.

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