Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)
A audácia maior do Vaticano II, evidencia-se na Gaudium et Spes, um texto que além de reformar linguagens e ajustar métodos, desloca o ponto de partida. Como se tivesse percebido, com uma lucidez sem precedente, que as grandes respostas fracassam quando ignoram os lugares onde a vida dói.
Em vez de iniciar pela arquitetura das provas, a Gaudium et Spes começou pela humanidade ferida. Descartou o abstrato, que paira intacto acima das ruínas, e acolheu a terra, assim como Jesus fez. Acolheu o caminho onde os passos pesam e o tempo deixa marcas.
Não a metafísica do absoluto, mas a pergunta que se insinua nas horas mais vulneráveis — por que sofremos? — e, logo depois, quase sem transição, como um eco que se recusa a calar — por que, apesar de tudo, ainda esperamos?
As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias, sobretudo dos pobres e dos que sofrem, tornaram-se, então, o autêntico prólogo da teologia.
Antes de falar de Deus, é preciso escutar o tempo humano. E o tempo humano não se deixa reduzir à sucessão dos dias. Ele se dobra, retorna, acelera, estagna.
Há dores que parecem novas e são antigas; há esperanças que julgávamos superadas e que reaparecem, como se tivessem aguardado o instante propício para se revelarem.
Lendo hoje aquele início, somos tomados por uma estranha sensação de reconhecimento. Como ocorre na experiência da memória involuntária, algo ali se oferece como reencontro. O texto fala de uma humanidade submetida a transformações rápidas, quase vertiginosas que ecoa em nós, que vivemos numa época em que o presente mal se deixa habitar antes de se tornar passado, reconhecemos que essa rapidez não cessou de se intensificar. Uma inquietante aceleração interior com a qual a humanidade se afasta de si, como se estivesse sempre atrasado em relação à própria vida.
O ensaio conciliar observa esse fenômeno sem acusar nem dramatizar em excesso. Ele descreve uma humanidade que acumula meios e perde a capacidade de permanecer; que domina a matéria e, paradoxalmente, sente crescer uma fragilidade íntima; que amplia as possibilidades de escolha e descobre, com espanto, que nenhuma delas o livra da pergunta essencial quando o barulho se aquieta. O progresso avança, a comunicação se expande, a história se comprime, mas a consciência, em vez de pacificar-se, torna-se mais inquieta, mais exposta, mais vulnerável ao cansaço de existir.
Há, nesse olhar, uma percepção refinada do desencontro entre abundância e sentido que fragiliza as perguntas. E, se as perguntas se fragilizam, torna-se difícil as respostas.
A humanidade aprende a prolongar a vida, mas não a habitá-la. Aprende a prever o futuro, mas não a suportar o presente. Aprende a explicar quase tudo, mas permanece silenciosa diante do essencial. A angústia, nesse contexto, é um sintoma e não um acidente. Ela revela que algo está excedendo as respostas disponíveis.
E, no entanto, o texto não se entrega ao desencanto. Ele mantém, com firmeza serena a esperança como resistência interior. Uma esperança circunspecta, quase involuntária, semelhante àquela que retorna na memória como um resto que insiste. Mesmo ferida, a humanidade continua a desejar uma vida plena. Mesmo desiludida, pressente que a existência não se esgota no que é mensurável. Mesmo cercada de explicações, experimenta um excedente que não se prova, mas se impõe.
Por isso, o Vaticano II não se apresse em resolver a questão de Deus. Ele parece compreender que, para muitos, essa questão foi soterrada menos por argumentos do que por decepções. Que há negações que nascem do protesto, silêncios que nascem do cansaço, indiferenças que são formas de defesa. O ateísmo, em certos casos, não surge como triunfo da razão, mas como grito moral diante de um mundo que parece injustificável. Nada disso é tratado com ironia; tudo é acolhido em sua importância.
Nesse ponto, a fé é ressurge como intérprete atenta da humanidade, não como sua concorrente. Aqui, a verdadeira ousadia se revela! Pois, falar de Deus só é possível depois de atravessar o humano, e não por cima dele. Uma teologia construída a partir da proximidade e da vulnerabilidade compartilhada. Logo, não há realidade verdadeiramente humana que não mereça ser escutada!
É por isso que o tempo daquele texto não se encerrou. Ele não pertence a um tempo, mas à duração. Continua porque a pergunta inicial permanece. Enquanto a humanidade continuar a sofrer sem compreender plenamente por quê; enquanto continuar a alegrar-se sem conseguir justificar essa alegria; enquanto continuar a esperar, mesmo quando afirma não acreditar mais, esse prólogo continuará a ser escrito no interior inquieto da história. Esse é um traço que persiste ainda hoje.
