Dom Diamantino Prata de Carvalho
Bispo Emérito da Campanha (MG)

“Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos”.

O Evangelho do 14º. Domingo do Tempo Comum – Mt 11,25-30 – nos coloca diante de uma das orações mais belas e íntimas de Jesus. Ele exulta no Espírito Santo e louva ao Pai com palavras que subvertem a lógica do mundo: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos”. Para compreender a força revolucionária dessa declaração, precisamos fazer um resgate histórico, e o podemos fazer a partir da seguinte pergunta: Quem eram, afinal, os “pequeninos” no tempo de Jesus? 

Na tradição bíblica que Jesus herdou do Antigo Testamento, a justiça de Deus sempre se mediu pela forma como a sociedade tratava três categorias específicas de pessoas: as Viúvas que sem seus maridos perdiam a própria identidade jurídica e econômica, ficando sem herança, sem teto e à mercê da caridade alheia; os Órfãos que sem a proteção paterna não tinham voz, nem direitos, nem quem os defendessem nos Tribunais da época, tornando-se o símbolo da fragilidade absoluta; os Estrangeiros que sem laços de parentesco na terra de Israel, acabavam por não possuir terras, sendo vistos com desconfiança e frequentemente explorados como mão de obra barata. Esses eram os “pequeninos”.  

Para a elite religiosa da época a pobreza e a vulnerabilidade dessas pessoas eram muitas vezes interpretadas como consequência do pecado. Mas Jesus marca a ruptura com tal concepção: é justamente a eles que o Pai decide revelar os mistérios do Reino. Por quê? Porque o coração do pequenino não está cheio de si; ele tem espaço para acolher o totalmente Outro, em última instância, o próprio Deus. Neste sentido, irmãos, podemos contemplar a atualização da Palavra de Deus, que não jaz na Galileia do primeiro século, mas que repercute na extensão das vulnerabilidades sócio-históricas até os dias atuais, naquilo que o Papa Francisco corajosamente chama de “periferias existenciais”, “lugares” que indo além da geografia física servem de espaço para atitudes e condutas de desrespeito e desumanidade.  

As Viúvas de hoje são, pois, mães desamparadas pelo Estado; mulheres invisibilizadas pelo trabalho mal remunerado; idosos abandonados em asilos, esquecidos por suas famílias e pela sociedade do descarte. Os Órfãos de hoje são crianças e jovens sem perspectivas, “órfãos de pais vivos” devido às longas jornadas de trabalho; menores que caem no tráfico de drogas; a juventude periférica cuja voz é silenciada pelo preconceito e pela falta de oportunidades. Os Estrangeiros de hoje são os refugiados climáticos e políticos; migrantes que deixam suas pátrias em busca de sobrevivência enfrentando xenofobias; mas também os “estrangeiros em sua própria pátria”, as populações em situação de rua e a comunidade LGBTQIA+ marginalizada, que não se sente pertencente a lugar nenhum. 

Queridos irmãos, Jesus não romantiza a pobreza. Ele sabe que a exclusão dói, cansa e esmaga. Por isso, a segunda parte do Evangelho é um bálsamo: “Vinde a mim, vós todos que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso”. O cansaço dos pequeninos de hoje é o peso de jornadas exaustivas, sem o adequado usufruto do justo descanso; o medo frente às atuais conjecturas políticas repletas de palavras, vazias de atitudes que verdadeiramente cooperem com o bem viver das famílias brasileiras; o fardo do preconceito estrutural, da depressão que rói a mente e o coração de tantos que nas grandes cidades, em aglomerados habitacionais, ainda se sentem sozinhos, sem alegria de viver. 

É neste cenário que somos chamadas a ser Igreja, o lugar onde os fardos são aliviados; o lugar onde temos Cristo como mediador e guia, sobrepondo a toda vã doutrina e a todo vão projeto de poder; o lugar que não exige “sabedoria e inteligência” doutrinária daquela cuja dureza da vida já lhes tirou tudo para viver, restando apenas Cristo e a Santa Igreja; o lugar que é sustentado por Cristo, e do qual emana todo o amor e suavidade capaz de sanar todo desânimo e cansaço.  

Ao fim, caros irmãos, esta liturgia nos convida a uma radical conversão do coração, de modo que conhecendo mais e mais do Deus de Jesus Cristo, alcancemos a graça de termos em nós e no íntimo de nossa comunidade um coração de “pequenino”, capaz de reconhecer os mistérios do Reino, certos de que o que fizermos a um dos mais pequeninos nesta vida, é justamente a Ele que o fazemos, e o bem-feito a Jesus é seguramente a garantia da verdadeira e eterna felicidade. Assim seja! 

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