Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba (MG)

 

O desafio da Quaresma para o cristão, que exige mudança e conversão pessoal, é a saída da zona de conforto. Toda mudança desestrutura as bases das pessoas humanas, leva à perda de raízes estabilizadas, principalmente porque são seres relacionais, e exige delas atitudes de coragem e determinação. As mudanças espirituais têm por finalidade conduzir o indivíduo para o encontro com Deus. 

As pessoas migram de um lugar para outro em busca de vida melhor. Dá a impressão de troca de valores, sair do não ter para o ter, o que é necessário para uma vida mais feliz. A dimensão da Quaresma vai mais adiante, porque quer atingir o interior da pessoa, exigindo dela a prática do tripé espiritual, que é a fé, a esperança e a caridade. A real felicidade depende de intimidade com o Senhor. 

Nos termos da Campanha da Fraternidade de 2026, “Fraternidade e moradia”, não é totalmente feliz quem não tem onde recostar a cabeça com tranquilidade. A falta de teto fere a dignidade do ser humano, porque ele tem que morar em lugares indignos, às vezes, nas ruas e praças, recebendo todo tipo de carga negativa. Essa realidade é uma violência para a dignidade da pessoa. 

Abraão assumiu a proposta de Deus, de ter que sair de sua zona de conforto, do lugar-comum, e ir para uma terra desconhecida (cf. Gn 12,1). Deveria fazer uma ruptura com o que possuía, deixar tudo para trás, para começar uma nova vida, com novos desafios. A migração é fato real em todo o Brasil, as pessoas e famílias têm que enfrentar as dificuldades do novo ambiente, às vezes mal acolhidas. 

Toda pessoa que migra, sai com a clareza do que deixa e leva consigo a obscuridade de seu destino. Mas o caminho deve ser de confiança na presença de Deus, que é fonte de graça e caminha com seu povo, de forma especial, com os mais sofridos, os sem-terra, sem teto e sem trabalho (Papa Francisco). Fraternidade e moradia é um clamor para que haja partilha e casa para todos. 

A Quaresma quer abrir os ouvidos das pessoas para escutar as propostas do Evangelho, evitar confundir os ruídos do cotidiano, de ouvir a própria voz e não perceber a voz do Mestre. O fundamental é desinstalar-se e sair da mesmice para dar passos de renovação, um verdadeiro processo de transfiguração, de assumir um projeto de vida e caminho seguro para a Páscoa da Ressurreição.  

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