A alegria de sambar a vida

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz
Bispo de Campos (RJ)

O Carnaval, que em dialeto milanês, significa adeus à carne, tempo que precede a Quaresma, sempre foi, no Brasil, ressonância da espontaneidade da região do Minho, de Portugal. De fato, a cultura cristã tem uma proposta otimista da vida, alternando momentos de exuberância festiva com momentos de penitência e comedimento. Em torno ao carnaval surgiram marchinhas, grupos como o Zé-Pereira (conjunto numeroso de zabumbas), clubes e sociedades carnavalescas, blocos de rua e escolas de samba.

O samba, como ritmo musical dá enlevo e graça aos passos, animando e trazendo, não só diversão e encanto, mas uma perspectiva esperançosa da existência. É verdade que muitos cometem desatinos, perdendo o sentido da proporção e até dos valores morais, mas também é verdade, especialmente nos blocos de rua e agregações de bairros, que podemos ver uma multidão de famílias sambando unidas e sem malícia.

Nas últimas décadas, emergiram experiências de evangelização e inculturação da fé: pagode cristão, samba de fé, escolas de samba com enredos religiosos e espirituais, o que mostra que há um terreno aberto e convergente em muitos valores com a proposta do Evangelho: solidariedade, alegria, beleza, encanto, e partilha, além de conteúdos especificamente religiosos e bíblicos.

O homem tem, como afirmava Harvey Cox e o próprio Huizinga, uma dimensão festiva e lúdica que faz aflorar junto com a necessidade de brincar, pular e dançar, a criança eterna que todos levamos dentro e que precisamos acessar para curar e resgatar a inteireza de nosso ser. Se é correto dizer, com algumas pessoas, que quem não gosta de samba bom, sujeito não é, também podemos acrescentar que, quem não valoriza as alegrias autenticamente humanas do carnaval, perde muito no aprendizado da nossa cultura. Deus seja louvado!

 

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