O Espírito que estrutura a comunidade: vivamos o Pentecostes! 

Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR) 

Celebramos hoje a Solenidade de Pentecostes, o coroamento do Tempo Pascal. Cinquenta dias após a ressurreição de Jesus, a Igreja reflete sobre a concretização da promessa do envio do Espírito Santo. Ao analisarmos a liturgia da Palavra deste domingo, não encontramos apenas uma narrativa histórica, mas um manual prático sobre a estrutura, a função e a missão da comunidade cristã. As leituras nos oferecem uma transição clara e necessária: do isolamento gerado pelo medo à ação pública impulsionada pela graça divina. 

O Evangelho de João (20,19-23) estabelece o ponto de partida desta transformação. O texto descreve os apóstolos no anoitecer do primeiro dia da semana, escondidos e com as portas trancadas por medo dos judeus. O medo é uma emoção que paralisa; ele ergue muros e impede a comunicação. Jesus rompe essa barreira física e psicológica ao colocar-se no meio deles. A sua primeira ação é oferecer a paz. Em seguida, Ele mostra as mãos e o lado, atestando que o Cristo glorificado é o mesmo que foi crucificado. A paz cristã, portanto, não ignora o sofrimento, mas resulta da superação dele. 

O núcleo analítico do Evangelho reside no sopro de Jesus. Ao dizer “Recebei o Espírito Santo”, o texto remete ao ato da criação relatado no livro do Gênesis, configurando uma verdadeira recriação da humanidade. Imediatamente, Jesus vincula esse dom à missão de perdoar ou reter os pecados. Na prática, o perdão é a ferramenta que reconstrói o tecido social rasgado pelo erro e pelo egoísmo. Sem o auxílio do Espírito, o perdão humano é falho e condicional. Com o Espírito, a absolvição torna-se o alicerce institucional que permite à comunidade perdoar e recomeçar. 

Se o Evangelho relata a infusão íntima do Espírito, a Primeira Leitura, extraída dos Atos dos Apóstolos (2,1-11), expõe a sua manifestação pública e coletiva. O cenário muda das portas trancadas para a exposição diante de uma multidão em Jerusalém. Os fenômenos do vento forte e das línguas de fogo evidenciam a força motriz e a purificação. Contudo, o elemento central desta narrativa é o milagre da comunicação. Os discípulos começam a falar, e judeus devotos de todas as nações os compreendem, cada um em sua própria língua. 

Este evento é a reversão exata do episódio da Torre de Babel. Em Babel, a autossuficiência humana gerou a confusão das línguas e a dispersão dos povos. Em Pentecostes, a ação de Deus gera o entendimento comum sem anular a diversidade cultural. O texto lista propositalmente partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia e romanos para atestar que a mensagem cristã é universal. O Espírito Santo não padroniza os indivíduos; Ele utiliza a pluralidade humana para anunciar as maravilhas de Deus. A unidade da Igreja se baseia na compreensão mútua. 

Essa constatação de que Deus sustenta a pluralidade da vida é o tema do Salmo Responsorial 103 (104). O salmista reconhece a dependência vital de todas as criaturas em relação ao seu Criador. O refrão “Enviais o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovais” traduz uma visão ecológica e teológica profunda. Quando Deus tira o respiro, os seres perecem e voltam ao pó. Quando Ele envia o seu Espírito, ocorre o renascimento. A liturgia aponta que o mesmo Espírito que perdoa pecados e une as nações é a força contínua que mantém o universo em perfeito funcionamento. 

Para organizar essa vitalidade, a Segunda Leitura, retirada da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios (12,3b-7.12-13), fornece a estrutura organizacional da comunidade. Paulo afirma categoricamente que a fé é um dom: ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor a não ser no Espírito. Em seguida, o Apóstolo analisa a dinâmica do trabalho eclesial: “Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor”. 

A análise paulina desarticula qualquer tentativa de competição ou orgulho dentro da Igreja. Os dons não são méritos para a promoção individual. O texto determina que a manifestação do Espírito é dada “em vista do bem comum”. Utilizando a analogia do corpo humano, Paulo explica que os diversos membros formam um organismo único. Pelo batismo em um único Espírito, as mais rígidas barreiras sociais da antiguidade foram abolidas: judeus e gregos, escravos e livres, tornam-se iguais na dignidade. O Espírito equaliza as pessoas. 

Ao concluirmos a análise destas quatro passagens, verificamos que o Pentecostes institui a ordem cristã. O Espírito pacifica o coração assustado, promove o diálogo entre os diferentes, sustenta a ordem da criação e organiza a Igreja para servir. Hoje, a nossa tarefa é aplicar essa mesma lógica em nossas realidades, enfrentando o isolamento com o perdão e o individualismo com o bem comum. 

Caminhemos com coragem, assumindo a missão confiada a nós. 

 

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