Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte (MG)

 

O amor à pátria é essencial ao exercício da cidadania por envolver o senso de pertencimento que gera coesão, ajuda a desenvolver a solidariedade, alinhando metas e propósitos no mesmo horizonte. Nessa direção, o amor à pátria pode até ajudar a tornar as diferenças uma riqueza, pois trata-se de nobre sentimento capaz de congregar pessoas ao redor de um mesmo ideal. Boa parcela da população brasileira reaviva esse amor quando chega o tempo da Copa do Mundo. A paixão pelo futebol, com a força de sua tradição, se amalgama com nobres sentimentos de pertencimento e, todos juntos, quase que com um só coração, anseiam pela vitória final de sua seleção. A torcida pela seleção nacional permite vislumbrar, ainda que de modo opaco, o que seria um contexto de irmandade entre todos. Importa a nação vitoriosa, com seu povo agraciado pelo troféu, com o santo orgulho de mais uma estrela alcançada. Esse movimento que congrega é um espetáculo até longo, quarenta dias, mas, sob a perspectiva social, dura pouco, especialmente na percepção de quem aguarda um novo dia, com mais respeito à dignidade humana e aos direitos civis.  

A força do patriotismo, marcada pela paixão esportiva, protagonizando nomes de craques-estrelas, guarda uma nostalgia. Convive com a falta de patriotismo para a confecção de um tecido social menos esgarçado, capaz de promover a abertura de um novo ciclo na história de um povo. Bem ao contrário dos sentimentos que irmanam brasileiros em torno da competição esportiva, as eleições, a serem disputadas este ano, alimentam a divisão e as disputas figadais. Embates que atrasam a conquista de troféus essenciais:  o bem comum, a promoção de uma nação justa e solidária, em sintonia com as suas condições singulares, as suas riquezas naturais e históricas. Tantos personagens inspiradores, com grandes feitos, inscreveram-se na trajetória do país, mas não ganham a projeção de craques-estrelas. E a nação, ao invés de ser embalada pelo sonho de uma conquista em igualdade social, resvala-se no precipício da desigualdade, em razão de esquemas de corrupção, de interesses estreitados pelo egoísmo e mediocridades que contaminam o exercício de responsabilidades na representação pública.   

A paixão e a torcida por uma nação, em todos os seus cantos e recantos, edificada no horizonte de um verdadeiro desenvolvimento integral se torna, ao que parece, cada vez mais inalcançável. Falta lucidez na condução de processos, contaminados pelas estreitezas de interesses partidários, por uma subcultura que distancia a política de sua nobreza, da sua força própria e indispensável. O egoísmo que contamina a política é um vírus que ataca por todos os lados e impõe atrasos ao país, impedindo-o de alcançar metas que configurem o desenvolvimento integral, sonhado troféu. Um dos sintomas graves desse vírus é a estratificação social que evidencia a grave desigualdade vivida no Brasil, obstáculo no caminho para um desenvolvimento à altura do conjunto das riquezas da nação. A grandeza da nação, na força do seu povo, de suas riquezas, torna-se insuficiente para impulsionar mudanças pela falta de craques capazes de protagonizar “boas jogadas”: líderes que façam o país avançar e conquistar estrelas. 

A subcultura que impede a conquista de estrelas no campo social e ameaça a vida cidadã é alimentada de muitos modos. Revela-se quando parcela significativa da população perde o gosto e o interesse pelo trabalho, fazendo com que o time não passe do meio campo e, consequentemente, permaneça incapacitado para fazer o gol. É preciso comprometer-se com o mundo do trabalho, promovendo legislações adequadas e lúcidas, a capacitação de trabalhadores, cultivando o sonho de vitórias que signifiquem conquistas para todos. As narrativas dos falastrões, dos que fazem promessas enjauladas em mediocridades humanísticas, fazem valer a hegemonia e o reinado dos poucos que usufruem, de modo injusto e inadequado, do bem de todos. O grito uníssono de gol celebrando o time que está vencendo precisa inspirar o mundo da política brasileira para que seja alcançada nova etapa de desenvolvimento. Para além da paixão esportiva, cultive-se um patriotismo social fecundando os preparativos e celebrações democráticas das próximas eleições, caminho para que a sociedade brasileira avance nos trilhos da igualdade solidária. 

A sociedade brasileira pede ações que enfrentem os cenários de exclusão social, atrasos, especialmente na infraestrutura e na promoção de trabalho digno para todos, para tornar-se detentora do troféu da justiça e do desenvolvimento social integral, uma nação vitoriosa e exemplar. A Copa do Mundo fecunde sentimentos de pertencimento que se desdobrem na vida cidadã, para colocar o Brasil, por meio de suas instituições e segmentos, particularmente com a realização das próximas eleições, em um horizonte sempre mais democrático, em trilhos que façam o “trem” ganhar grande velocidade, em respeito a todos, especialmente aos pobres e sofredores, vítimas de exclusões, exilados por subculturas. O sentimento de pertencimento capaz de ajudar a transformar a sociedade, promovendo o respeito à dignidade humana, é a estrela que falta. Seja, pois, sonhado um grito de vitória alcançado pela força do patriotismo social. 

 

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