Dom Leomar Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)
Há uma palavra que aparece com força nas Diretrizes e que, aos poucos, vai ganhando espaço na vida da Igreja: sinodalidade. À primeira vista, pode parecer um termo difícil, mas seu significado é simples e profundamente evangélico: caminhar juntos. Não se trata apenas de reuniões ou estruturas. Trata-se de um modo de ser Igreja; de uma forma de viver a fé na qual ninguém caminha sozinho, ninguém decide isoladamente e ninguém é deixado para trás.
Desde o início, a Igreja nasceu assim. Os apóstolos não agiam de maneira isolada. Diante dos desafios, reuniam-se, escutavam, rezavam e discerniam em comum. O livro dos Atos dos Apóstolos revela com clareza essa experiência: a comunidade deixava-se conduzir pelo Espírito Santo, e não por interesses pessoais ou projetos individuais. As Diretrizes retomam essa inspiração e afirmam que a Igreja, hoje, é chamada a redescobrir esse caminho. E isso começa com uma atitude essencial: escutar.
Escutar não é apenas ouvir palavras. É acolher a experiência do outro, abrir espaço para diferentes vozes e reconhecer que o Espírito Santo também fala por meio dos irmãos e irmãs. Isso exige humildade. Exige disponibilidade interior. Exige renunciar à pretensão de já saber de tudo.
Uma Igreja sinodal é aquela que valoriza todo o povo de Deus. Nela, cada batizado tem lugar, voz e missão. Os leigos não são apenas colaboradores, mas protagonistas da evangelização. Os ministros ordenados, por sua vez, não caminham à frente de modo isolado, mas com o povo, ajudando-o a discerni os caminhos de Deus.
Uma Igreja sinodal é aquela que valoriza todo o povo de Deus. Nela, cada batizado tem lugar, voz e missão. Os leigos não são apenas colaboradores, mas protagonistas da evangelização. Os ministros ordenados, por sua vez, não caminham à frente de modo isolado, mas com o povo, ajudando-o a discernir os caminhos de Deus.
Caminhar juntos, porém, não significa ausência de direção. Pelo contrário: significa buscar, juntos, a vontade de Deus. É aqui que entra uma palavra-chave: discernimento.
Discernir não é simplesmente escolher aquilo que parece melhor. É procurar compreender o que Deus deseja. É perguntar, com sinceridade: que caminho conduz mais plenamente ao Evangelho? Que decisão gera mais vida?
Para onde o Espírito Santo está nos conduzindo?
As Diretrizes insistem que esse discernimento deve ser realizado em comunidade, à luz da Palavra de Deus e na escuta atenta da realidade. Não basta repetir fórmulas do passado. É necessário deixar-se conduzir pelo Espírito no presente. Isso exige tempo, paciência e oração. Uma Igreja sinodal não é apressada. Ela não decide tudo sozinha nem tudo rapidamente. Ela caminha, escuta, reza e amadurece.
Outro aspecto fundamental é a comunhão. Caminhar juntos significa também superar divisões. Em um mundo marcado por polarizações, a Igreja é chamada a ser sinal de unidade. Não uma unidade que apaga as diferenças, mas uma comunhão capaz de acolhê-las, integrá-las e orientá-las para a missão. Esse é um grande desafio, pois exige sair de si, acolher o outro, dialogar e perdoar. Mas é também um testemunho poderoso: mostrar que é possível viver a fé em comunhão.
No fundo, a sinodalidade recorda à Igreja algo essencial: ela não pertence alguns, mas é formada por todos aqueles que, pelo Batismo, foram chamados a seguir Jesus Cristo. Todos são chamados a caminhar juntos, guiados pelo Espírito Santo.
A pergunta que permanece para cada comunidade é simples e exigente: estamos caminhando juntos ou cada um está seguindo sozinho?
Quando a Igreja aprende a caminhar assim, algo novo acontece. As decisões tornam-se mais maduras, a missão ganha mais força e o Evangelho torna-se mais visível. Porque, no final, não se trata apenas de um método. Trata-se de viver como Jesus viveu: em comunhão, em escuta e em caminho.
