Cardeal Sergio da Rocha
Arcebispo de Salvador (BA)
A Copa do Mundo da FIFA provoca diferentes reações nas ruas, nas redes sociais e nos diversos ambientes da sociedade. São inegáveis o seu singular significado para o povo brasileiro e o seu impacto na vida social. Há, de modo geral, grande interesse e simpatia pela Copa, mas observa-se também críticas à maneira como é organizada ou ao país que a recebe, fazendo emergir a questão de sua ambivalência e do discernimento atento de seus valores e contradições.
É preciso distinguir serenamente o valor do esporte, particularmente do futebol, o evento Copa do mundo nos padrões da FIFA e, por fim, a sua realização num determinado país, com o seu contexto sociocultural, político e econômico. Refletir sobre o significado destes diferentes níveis é tarefa exigente, que ultrapassa os limites desta reflexão. A Copa é uma ocasião especial para pensar o futebol, os esportes, a política, o mundo em que vivemos, com seus dramas e alegrias. Tal pensar vai sendo construído de modo espontâneo e plural, suscitando paixões e apontando para a necessidade de “jogar”, de modo justo e feliz, nos estádios ou nos gramados da vida.
É preciso “jogar” diferente fora dos campos de futebol, recusando jogadas violentas ou desonestas para marcar os gols tão desejados da fraternidade, da justiça e da paz. Para que as alegrias dos estádios possam ecoar na vida das pessoas, das famílias e do povo, há necessidade de jogadores e torcedores pela vida, pela justiça e pela paz. Os eventos esportivos de maior magnitude trazem alegria compartilhada e possibilitam o encontro fraterno. Ao mesmo tempo, têm crescido as situações de agressividade e intolerância entre torcedores rivais, vitimando até mesmo quem vive do verdadeiro espírito esportivo, que se expressa na convivência pacífica e no respeito ao outro. Não se pode admitir ou justificar a agressividade e a violência nas arenas ou fora delas. O futebol e os esportes em geral devem contribuir para a construção da fraternidade e da paz, tão necessárias no mundo de hoje.
É justo alegrar-se, nutrindo a esperança da vitória brasileira no campeonato mundial. Ao mesmo tempo, é necessário gastar tempo, energias e recursos na construção da paz, para que as alegrias das vitórias esportivas se prolonguem na vida cotidiana. Nesta tarefa imensa que ultrapassa o tempo regulamentar das partidas e da Copa, a fé cristã e a ética podem desempenhar um papel fundamental. Jogar pela paz, jogar pela vida, é um imperativo ético que a todos interpela. A fé em Deus é fundamental nas arenas esportivas e nos campos da vida. As religiões devem oferecer a sua contribuição para a construção da paz. O pluralismo cultural e religioso de jogadores e torcedores, na Copa, pode ser uma ocasião especial para a convivência respeitosa e pacífica.
