João Batista, o profeta do Altíssimo 

Dom Itacir Brassiani
Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)

 

 

A festa de São João está profundamente arraigada na cultura do povo brasileiro. Mesmo que aparentemente tenha se distanciado do seu nascedouro bíblico e profético, a alegria simples e inocente que a caracteriza brota da certeza de que Deus não esquece a aliança que fez conosco: ele visita e liberta seu povo, e envia profetas para endireitar caminhos.  

Esta festa não exige uma megaprodução (a não ser nas cidades que disputam o título de ‘maior São João do mundo’). Em geral, basta uma pequena fogueira, uma roupa simples e barata, uma música improvisada e capaz de tocar a alma popular, alimentos que custam pouco e têm sabor de nostalgia, e bandeirinhas coloridas bailando nos varais.  

Na festa de São João, os degraus do poder dão lugar à roda que a todos iguala nas mãos dadas. A seriedade dos comandantes e a resignação dos que devem obedecer ao ritmo de produção ditado pela sede de lucro dão lugar a uma alegria que lança raízes no passado bíblico e adquire brilho na Esperança de um mundo que está por vir.  

Nessas festas, os operários viram artistas, os camponeses se revelam bailarinos, os coadjuvantes são protagonistas. Tanto a alegria como a irreverência têm raízes bíblicas e força transformadora. Elas brotam da descoberta de que Deus olha para as mãos calejadas, para os rostos sofridos, para os corpos vergados e os corações partidos. 

O nascimento de João sacramentaliza a delicadeza de um Deus que levanta o manto da vergonha e da dor que, numa sociedade machista, pesa sobre uma mulher idosa e sem filhos (cf. Lucas 1,25). Os vizinhos se alegram com esta demonstração da misericórdia de Deus. E a razão dessa alegria está no próprio nome dado àquele prodígio nascente. 

João significa literalmente ‘Deus age com misericórdia’. Dando este nome ao filho da velhice, Isabel e Zacarias rompem com o hábito de fazer do filho um espelho dos desejos dos pais. João será profeta, e não sacerdote, como o pai. Ele será ‘profeta do Altíssimo’, irá à frente do Filho de Deus, ‘preparando os seus caminhos e dando a conhecer ao seu povo a salvação, graças ao coração misericordioso do nosso Deus’ (cf. Lucas 1,76-78).  

Herodes mandou matar João por ele ter criticado sua relação inadequada com a cunhada (cf. Mc 6,17-18). Mas João é muito mais que um pregador da moralidade nas relações conjugais.  Ele exige mudanças radicais, em todos os âmbitos da vida. “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo…” (cf. Lucas 3,11). 

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