Em uma sessão marcada por forte emoção, depoimentos de educadores e cantos de resistência, a Câmara dos Deputados realizou, na quinta-feira (18), uma Sessão Solene em homenagem aos 65 anos do Movimento de Educação de Base (MEB). A solenidade reuniu parlamentares, lideranças religiosas, educadores populares e estudantes no Plenário Ulysses Guimarães para celebrar a trajetória de uma das instituições mais resilientes da história da educação popular no Brasil.
Fundado em 21 de março de 1961 por iniciativa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em parceria com o governo federal, o MEB nasceu com o desafio de enfrentar o abismo do analfabetismo estrutural que, na metade do século XX, isolava milhões de brasileiros. Pioneiro na educação à distância, o movimento utilizou escolas radiofônicas para levar alfabetização, cidadania e a pedagogia freiriana — baseada no método do “ver, julgar e agir” — a comunidades rurais, quilombolas, indígenas e ribeirinhas do “Brasil profundo”.
Transformação real e dados de impacto
Durante o seu pronunciamento, a deputada Érica Kokay ressaltou a vitalidade do movimento, que sobreviveu a ditaduras, cortes orçamentários e profundas transformações sociais ao longo de seis décadas e meia. Kokay apresentou números que ajudam a dimensionar o impacto do MEB: somente entre os anos de 2003 e 2010, mais de 186 mil jovens e adultos foram alfabetizados sob a tutela de aproximadamente 40 mil educadores populares.
Mesmo diante dos desafios recentes e de restrições financeiras que afetam as pastorais sociais, o movimento segue atuante. Em 2020, o MEB alfabetizou 5.500 pessoas e, neste ano de 2026, já formou mais de uma centena de novos educadores comunitários para atuar diretamente nas bases. “Alfabetizar não é apenas ensinar a ler e escrever; é possibilitar que as pessoas compreendam a realidade em que vivem, desenvolvam consciência crítica e se reconheçam como sujeitos de direitos e protagonistas da própria história”, destacou a parlamentar.
A voz do território e a “batalha dos dedos”
O ponto alto da solenidade foi o protagonismo dado a quem constrói o movimento no dia a dia. Elma Almeida, educadora popular que atua em São Sebastião, no Distrito Federal, trouxe para o plenário a realidade das periferias da capital federal. Embora o DF ostente uma das menores taxas de analfabetismo do país (1,8%), Elma alertou para o “abismo social” que os números escondem, lembrando que a maioria dos não alfabetizados são idosos com mais de 60 anos, historicamente relegados pelo Estado.
Ela emocionou a assistência ao descrever “a batalha dos dedos” de alunas que enfrentam problemas de memória, chuva e barro para aprender a assinar o próprio nome. “O sonho delas é preencher o nome completo na carteira de identidade para não ter mais que usar a impressão digital. É ter o próprio nome”, relatou a educadora.
O reflexo prático dessa dedicação foi sintetizado no breve e contundente depoimento de Maria José Guedes da Silva, que estuda há cinco anos no núcleo do Itapoã/DF: “Quando eu cheguei lá, não sabia nem ler nem escrever. Agora já sei ler, sei escrever e me sinto muito bem. O MEB é tudo para mim.”
Presença ativa e os novos desafios na era digital
Representando a gestão e a continuidade dessa missão histórica, a irmã Delci Maria Franzen, Secretária Executiva do MEB, sublinhou em seu discurso que o movimento não pertence apenas ao passado, mas se reinventa diariamente para responder às novas exclusões sociais, especialmente no contexto tecnológico atual.
Irmã Delci apontou que a missão do MEB em 2026 vai além do letramento tradicional, alcançando as periferias urbanas e rurais por meio da formação de redes e coletivos de juventude e mulheres.
“São milhões de pessoas hoje no Brasil necessitadas de uma nova alfabetização; pessoas com enormes dificuldades para desenvolver habilidades básicas no contexto da era digital em que nós vivemos e, por isso, excluídas. O MEB de hoje é presença, é diálogo e é esperança ativa”, afirmou a secretária executiva.
Memória, resistência e o futuro digital
Além do trabalho direto com a alfabetização de adultos, a sessão destacou as diversas frentes de atuação do movimento, como a articulação socioambiental, a formação sociopolítica de jovens e a inclusão digital. O diretor do Centro Mages Burnier, padre Lucas Maurício, exaltou a parceria com o MEB no Cursinho Pré-Loyola — projeto voltado a preparar jovens de baixa renda para o ambiente acadêmico, onde o movimento apoia não apenas pedagogicamente, mas também garantindo o custeio da alimentação dos estudantes.
O encerramento da sessão foi conduzido por dom Juarez Marques Sousa da Silva, arcebispo de Teresina (PI) e presidente do Conselho Deliberativo do MEB. O religioso uniu os conceitos de “memória e esperança” para definir a resiliência institucional do movimento. Ele relembrou figuras históricas da Igreja Católica que impulsionaram as primeiras experiências de rádio no Nordeste, como Dom Helder Câmara e Dom Eugênio Sales, e reforçou o compromisso atual nas periferias geográficas e existenciais.
Atualmente, as ações de mobilização social e alfabetização do MEB concentram-se com forte relevância nos estados do Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte e no Distrito Federal, adaptando-se constantemente aos desafios da era digital para garantir que o conhecimento continue sendo uma ferramenta de libertação coletiva.
Por MEB | Foto: Kayo Magalhães | Câmara dos Deputados
