Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)
Um dos maiores filósofos dos últimos tempos, Friedrich Nietzsche escreveu uma obra que despertou a humanidade para uma nova fase de seu humanismo: “Assim falava Zaratustra” (1883/1885). Servindo de um belo texto poético e repleto de metáforas, a obra tem rendido variadas interpretações, até mesmo desvirtuações. Alguns a classificam como uma profecia do mau agouro. Outros a interpretam como o anúncio de nova humanidade. O profeta solitário desce da montanha para legar à humanidade a superação do homem… Trata-se de uma leitura sempre atual, que abre novas perspectivas hermenêuticas.
Onze anos após o lançamento da obra de Nietzsche, R. Strauss compôs um poema sinfônico inspirado na obra nietzschiana. O compositor desejou traduzir as ideias de superação humana e evolução espiritual propostas pelo filósofo. A famosa introdução musical, a modo de esplendoroso prólogo, conhecida como “o nascer do sol”, expressa o amanhecer de um novo dia, um novo tempo, um novo humanismo. Seria, possivelmente, uma das introduções mais épicas de uma obra musical, bem difundida por meio de um clássico do cinema. Trata-se de uma passagem musical de interpretação bastante emblemática, em três notas musicais – dó, sol e dó – como representações do universo, da humanidade e, novamente, do universo.
Na sua primeira encíclica, o Papa Leão XIV dedica vários parágrafos para análise dessa nova fase da humanidade que a história atravessa. As coisas novas do mundo contemporâneo, centradas nos avanços tecnológicos e na Inteligência Artificial, estariam inaugurando uma nova era de transumanismo e pós-humanismo? O entusiasmo pelas novas tecnologias, com uma visão futurista do “homem aperfeiçoado” ou do “homem hibridado” com a máquina, corre o risco de realizar um salto para a pós-humanidade (cf. MH, 115). Isso é posto pela “centralidade da tecnologia e o sonho de ultrapassar os limites da condição humana” (MH, 116).
Leão XIV explica, de forma simples, esses dois conceitos desafiadores para o tempo presente. “O transumanismo, em linhas gerais, imagina um aperfeiçoamento do ser humano através das tecnologias (biomedicina, engenharia corporal, dispositivos, algoritmos), aspirando a aumentar o seu desempenho e capacidades. O pós-humanismo, sobretudo nas suas versões radicais, vai além: critica o antropocentrismo e propõe uma forma de hibridação entre o ser humano, a máquina e o ambiente, chegando a imaginar uma transição em que a humanidade se superará a si própria, entrando num novo estádio de evolução” (MH, 116).
Trata-se de questões especulativas, uma espécie de lendas contemporâneas ou teorias da conspiração? Continua o Papa: “Mesmo se estas hipóteses permanecem em grande parte especulativas, elas adquirem relevância, porque modificam o imaginário coletivo e, consequentemente, orientam as escolhas sociais, econômicas e políticas” (Id.). Por isso, é preciso considerar essas tendências e compreender em que sentido podemos esperançar nova humanidade, para além de transumanismo e pós-humanismo.
Seria possível superar essas perspectivas de transumanismo e pós-humanismo, em nova abordagem antropológica? O Papa Leão XIV nos apresenta uma inquietação, uma questão decisiva: “se existe um autêntico ‘mais que humano’, onde se encontra? A fé cristã responde indicando uma plenitude que não deriva duma divinização tecnológica, mas daquela realizada pela graça de Deus recebida em Cristo” (MH, 126). A natureza humana, contando com a graça divina, possui todas as potencialidades para galgar ao novo humanismo.
Muito se tem pensado, discutido e escrito sobre nova humanidade ou novo humanismo, para além do sonho de autossuficiência anunciado por Prometeu. Trata-se de valorizar e elevar as características antropológicas que lhe são peculiares: sensibilidade e inteligência, consciência e liberdade, vontade e desejo, compaixão e solidariedade. O saudoso Papa Francisco nos ensinou que “chegamos a ser plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro” (EG, 8).
O Papa Leão XIV nos indica o caminho para superar a quimera prometeica: “o que salva o ser humano não é a autossuficiência aperfeiçoada, mas uma relação que liberta, uma comunhão que transforma. Perante isto, uma tecnologia que classifica e otimiza o que já existe pode tornar-se, sem querer, um obstáculo à mudança e ao crescimento. Para um algoritmo, o erro é algo a corrigir; para uma pessoa, pode ser o início de uma mudança profunda. O futuro de uma pessoa não é calculável, mas está confiado aos laços que cultiva e à sua liberdade, elevada pela inesgotável graça divina” (MH, 128). Assim, o ser humano é chamado a atingir a humanização de sua humanidade.
