João Batista é a labareda que ilumina o Cristo, que tira o pecado do mundo! 

Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR) 

Dentre os muitos aspectos das festividades do mês de junho, um que seguramente ocupa o centro da tradição popular é o fogo incandescente na noite de São João. A tradicional “Fogueira de São João”, acendida em meio aos terreiros Brasil afora, aquece não só os transeuntes que passam em seu entorno, como também o coração daqueles que, estimulados pelas canções ao toque das sanfonas e de outros tantos instrumentos, fazem ressoar uníssonos a beleza do canto do sertão. 

Todavia, mais que uma ocasião de festa em torno às chamas, as fogueiras acendidas têm suas origens para além dos festivais a modas soltas. A fogueira de São João é, antes de tudo, um dos símbolos mais potentes das festas juninas, carregando significados que unem a fé cristã a antigas tradições. O elemento fogo atua como uma fonte entre o sagrado, a natureza em seus ciclos e a própria vida comunitária. Para além disto, o fogo carrega um chamado mais profundo que por vezes é quase esquecido, haja vista o propósito cristão que deve primar como a essência do distinto festejo. 

Distraídos com a singeleza do João menino que tem junto a si o dócil cordeiro e impulsionados pelo calor da emoção das grandes festas, muitos esquecem do sinal que a vida de João Batista representa na Sagrada Tradição, desde sua natividade, solenemente celebrada, ao seu martírio, cuja dor repercute na dor de tantos outros massacrados pelo poder tirano. E como dileto sinal, apregoado com veemência pelo Precursor, o fogo assume renovado sentido incandescendo não apenas os olhos do corpo, mas também os do espírito, aquecendo não apenas os corpos enrijecidos pelo frio da roça, mas também o coração espiritual do fiel e da comunidade que comemora. 

“Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu […] Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Lc 3,16). Nessa afirmação, o Precursor não apenas define os limites da própria missão, mas abre caminho para a novidade absoluta de Cristo. A água de João purifica o exterior e prepara o arrependimento; o fogo de Jesus penetra as entranhas, consome o pecado e transforma a própria natureza humana. Justamente aí a piedade popular cristã encontra a forma de perpetuar essa transição por meio do acender da fogueira de São João.  

Tal fogueira se desvela como uma metáfora: ela é luz que brilha na escuridão da noite, mas não possui luz própria para se sobrepor ao brilho abundante da luz do dia; ela se consome para apontar o caminho, enquanto anuncia o Sol Nascente que ao fim da noite fria desponta majestoso, como o belo esposo do quarto nupcial, como o valente guerreiro triunfante em seu caminho, traduzindo assim, em elementos simples, a mensagem e o mensageiro, o Cristo anunciado e aquele que com a vida o anunciara, selando com o sangue o romper de uma aurora que até hoje não vê seu fim, antes a perpetuar como o dia da sempiterna e feliz ressureição. 

De tal modo, João Batista distingue-se como a última labareda da Antiga Aliança, o fogo profético que no auge de toda profecia prepara os corações, ardendo, consumindo, mas sem jamais extinguir, antes a fortificar o que o Pecado viera a oprimir. Tais mistérios torne, pois, convictos, os cristãos do tempo presente, para que o batismo de fogo predito por João e concretizado com Cristo em Pentecostes, esteja perenemente a aquecer os filhos e filhas de Deus nas gélidas noites de sua infeliz preponderância, rompendo a partir daí, pela luz divina, as trevas de todo erro e engano.  

Que ao redor das fogueiras acendidas neste nosso Brasil seja partilhada não somente a alegria que revigora a dura lida, mas sobretudo a Esperança que, fruto de tão importante Batismo, regenera e revigora pelo fogo de Cristo a chama acendida não por homens, nem com lenhas de quaisquer campos, mas por Cristo, que do madeiro da Cruz segue sedento por vibrar para sempre em nossos corações.  

 

 

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