O desafio da catequese urbana a partir do Apóstolo Paulo

“Cidadãos atenienses! Vejo que, sob todos os aspectos, sois os mais religiosos dos homens. Pois, percorrendo a vossa cidade e observando os vossos monumentos sagrados, encontrei  até um altar com a inscrição: ao ‘Deus desconhecido’. Ora bem, o que adorais sem conhecer, isso venho eu anunciar-vos!”(At 17,23-31).

No dia 28 de junho de 2007, Bento XVI anunciou a celebração de um “especial ano jubilar” dedicado ao grande apóstolo Paulo, por ocasião dos 2000 anos do seu nasci-mento. E a catequese tem muito o que celebrar neste Ano Paulino.

Com certeza a Catequese encontra-se em um cenário tão desafiador como foi o de Paulo, que é o de levar seus catequizandos a um encontro verdadeiro, pessoal e conseqüente com Jesus Cristo. A Conferência de Aparecida apontou também, como desafio da catequese, o descortinar deste horizonte amplo em que vive hoje a pós-modernidade. Hoje o discípulo missionário precisa ser incentivado a fazer o que fez Paulo: Ter um espírito missionário.

Na verdade, a Igreja, no momento atual, encontra-se diante de vários desafios na sua missão evangelizadora, dentre eles a catequese no meio urbano. Para responder a esses desafios e para que a sua ação seja eficaz, fazem-se necessários caminhos novos e abertos aos problemas atuais, em que a modernidade quer pôr em xeque os valores e a própria linguagem da fé. A busca de soluções, quando apoiada apenas pela novidade, pode ser  arriscada e esvaziar o sentido da mensagem, pois o contexto em que se apresentam infinitas informações midiáticas, traz consigo uma nova lógica, que, nem sempre, apresenta elementos satisfatórios para uma melhor caminhada para a catequese e, até mesmo, para a evangelização. O conteúdo apresentado, às vezes, são as próprias convicções do meio. Com a catequese tem que ser diferente, ela deve irradiar uma mensagem de sentido porque os seus interlocutores são diversos. A linguagem realmente necessita ser atualizada, mas sem se adulterar, pois há valores permanentes, e estes são inegociáveis.

É pertinente buscar orientações na Bíblia, fonte cristã, mesmo que para isso alguns paradigmas da atualidade tenham que ser repensados e novos percursos traçados, porque o evangelho traz revoluções e mudanças, ele é Boa Nova para todos a partir dos pobres.

Foi assim com o Apóstolo Paulo, aquele que inovou com seu jeito de evangelizar, buscando, na cidade, seu lugar de moradia, elementos para se fazer entender na mensagem que apresentava. É possível dizer que ele mudou substancialmente os exemplos para a evangelização.  Devemos lembrar-nos de que, nos evangelhos, o ambiente e a cultura apresentados são basicamente rurais, como as parábolas, o trabalho, a natureza etc. Paulo muda esse eixo, levando-o do povoado para a cidade. E é linda a idéia de “corpo” que ele demonstra (cf. 1Cor 12,4-31), para dizer que cada um tem uma função, um serviço diferente, no trabalho e dentro daquela cultura em que se encontrava. Cada problema que surgia, Paulo acolhia na diversidade que se apresentava. Já tratava de “temas transversais” (anacrônico o termo, mas pertinente) que surgiam, como no caso do escravo Onésimo e a nova visão de trabalho em que ele mesmo se coloca como exemplo (cf. 1Ts 2,9).

Pode-se dizer que Paulo foi um verdadeiro catequista e evangelizador, qualidade necessária aos catequistas, pois foi ele um grande testemunho do que Jesus fez e ensinou. Jesus mandava seus discípulos em itinerância, algo próprio do mundo rural, e Paulo, diante do desafio da cidade grande, formava comunidades. Falava em cidades com milhares de habitantes, como Atenas, Éfeso, Corinto etc. Mesmo acolhendo o diverso, não perdia o essencial, não relativizava nem a liberdade nem a salvação em Cristo (cf. Gl 5,1). Essa é a mensagem que Paulo sempre defendeu e transmitiu nas diversas situações, inclusive de discórdia com Pedro e com os notáveis de Jerusalém (cf. Gl 2,1-10). Era um homem muito dinâmico e não descuidava nunca do anúncio verdadeiro de Jesus.

Este apóstolo sempre aproveitou o “território” em que se encontrava para interagir com os gentios que a ele se apresentavam (cf. At 17,22-31). Preocupava-se com uma mudança de mentalidade e de práxis, pois estavam todos iniciando naquela nova maneira de vivenciar a fé em seguimento à pessoa de Jesus Cristo, sendo necessário deixar o “homem velho” para trás.

É bom visitar as Cartas Paulinas, pois elas estão em contextos que podem assemelhar-se a alguns dos problemas atuais. Atualmente, o mundo se apresenta bem pluralista, com muitas igrejas discursando sobre um sagrado fascinante e misterioso, e há uma mudança de valores que demonstra transição para uma outra época. Também naquele tempo estavam acontecendo grandes mudanças. O Império Romano mesclava-se com o mundo grego, buscando nele a cultura urbana dos teatros, dos jogos olímpicos, dos banhos públicos. Havia também as praças, que eram lugares de trocas de idéias e filosofias, um mundo extremamente masculino (cf. Gl 3,28). Paulo traz o evangelho vivo de Jesus Cristo e o expande na sua mensagem para essa nova cultura com todos os seus desafios, inclusive da linguagem. Assim, ele tirou o evangelho da cultura judaica e o inculturou na Ásia, na Europa e África.

As cartas de Paulo apresentam problemas existenciais, como a própria catequese com adultos, em que ele vai conduzindo diferentemente à medida que se apresentam os problemas e questionamentos, diferenciando o que era cultural e o que era essencial da fé. Algo bem possível de fazer na catequese hoje, como ele mostrou. Não que seja fácil, mas possível.

A experiência sempre vai produzir o testemunho, e vice-versa, descobrindo novas maneiras de catequizar e evangelizar. Não é ensino ou curso, é o caminho de possibilidades que se apresenta em cada situação, e, gradativamente, o/a catequizando/a ou pessoa de fé vai sendo interpelada pela vida e se vê na necessidade de agir (cf. 1Cor 9, 19-23). Grande finalidade da catequese é que cada pessoa cristã possa, um dia, dizer como Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20a). Em Paulo, pelo que ele fez e ensinou, ecoou a verdadeira mensagem de Cristo.

Malu Azevedo Rosa
Coordenadora da Comissão Arquidiocesana de Catequese de Belo Horizonte

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