A tragédia brutal que se abateu sobre o Haiti continua a comover e a fazer pensar. As pessoas, ainda perplexas, continuam a se interrogar a respeito do sentido dos acontecimentos, das suas causas, do seu por que. As imagens veiculadas pela mídia comovem e nos fazem sentir próximos das vítimas, mesmo sem conhecê-las pelo nome.
O terremoto sacudiu não apenas a terra haitiana; acabou por sacudir a terra toda, despertando os sentimentos de fraternidade e compaixão, muitas vezes escondidos ou ofuscados. Sentimos que formamos uma grande família e que esta nossa família foi ferida de dor e de morte. Unidos ao Haiti, nos sentimos atingidos pelo terremoto. Contudo, é preciso ir além da comoção, aproveitando a ocasião para refletir e agir. Em busca de explicação para o ocorrido, considerando-se a magnitude da catástrofe, muitas análises têm sido publicadas, sob os diversos aspectos: geológico, histórico, sociológico, ético-teológico. Tais análises são importantes para se compreender o ontem e o hoje do Haiti, indicando que o quadro de dor e desolação, hoje verificado, já se encontrava presente antes, tendo sido agravado em muito pelo terremoto. Não é correto reduzir a explicação do atual quadro social haitiano ao fenômeno natural ocorrido. Isso não ajudaria a entender a presente situação e, menos ainda, a traçar as iniciativas justas e eficazes para a sua superação. As conseqüências de um fenômeno natural que se abate sobre a população – ainda que de proporções descomunais como no Haiti– estão relacionadas à realidade social em que se vive. Há muitas imagens tristes sobre o Haiti, gravadas antes do terremoto, que pela sua brutalidade parecem ter sido filmadas depois. As análises da situação haitiana têm mostrado que as conseqüências do terremoto devem ser compreendidas à luz da realidade histórica e social do Haiti.
O momento deve ser de reflexão e de chamado à responsabilidade no socorro imediato às vítimas e diante do gigantesco desafio da reconstrução. Por uma tragédia natural, pode-se não ter culpa. Por situações de miséria, corrupção e violência, é preciso assumir a responsabilidade. Elas estão espalhadas por toda parte, agravando-se em casos de catástrofes naturais, das quais os pobres são sempre as maiores vítimas. A catástrofe natural revela a gravidade da crise social. O Haiti precisa ser reconstruído com a ajuda da Comunidade Internacional. Trata-se de um teste para a Comunidade Internacional desafiada à globalização da solidariedade, tendo a ONU especial responsabilidade neste processo. Mas o Haiti precisa também de corações solidários e mãos estendidas: as nossas! Com o passar do tempo e da comoção, corre-se o risco de se esquecer ou de se acostumar com a tragédia haitiana, acabando por considerá-la uma a mais dentre tantas outras. Por isso, é preciso ir “muito além da viva comoção” e “permanecer junto aos afetados por este desastre”, conforme as palavras de Bento XVI na carta dirigida a Conferência Episcopal do Haiti.
“Neste momento, são necessárias iniciativas que demonstrem a solidariedade internacional como, por exemplo, o perdão imediato de toda a dívida externa do Haiti, que corresponde a 30% do seu pobre orçamento, e ações humanitárias que amenizem a dor e reanimem a esperança do povo haitiano”, afirma a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), na nota “Solidariedade ao Povo do Haiti”. Como gesto concreto de solidariedade, a CNBB e a Cáritas Brasileira lançaram a Campanha SOS Haiti e nas dioceses de todo o Brasil tem sido realizadas orações e coletas em favor das vítimas do terremoto.
Na tarefa de reconstruir o Haiti com a ajuda internacional, dois perigos devem ser afastados, pois por mais bela e necessária que seja a solidariedade internacional, há sempre interesses políticos e econômicos em jogo. O primeiro é a militarização com o pretexto de se obter prosperidade e paz, embora se deva reconhecer a importância da presença das forças de paz da ONU, com a contribuição dos capacetes azuis brasileiros. O segundo é o risco de se ferir a soberania do País, a autonomia do governo democrático e do povo haitiano. Por mais importantes que sejam os auxílios estrangeiros, é preciso estar atentos para jamais excluir os próprios haitianos da tarefa de traçar os rumos da sua história e de serem os protagonistas da construção de uma nova sociedade baseada na justiça social e na paz. Os haitianos foram os primeiros a abolir a escravidão, dando-nos a lição do reconhecimento da dignidade e da liberdade de cada pessoa humana. Que o Haiti possa continuar a recordar ao mundo a necessidade do respeito e valorização de cada pessoa humana e da efetivação dos seus direitos na sociedade.
Neste processo de socorro às vítimas e de reconstrução, a fé cristã desempenha papel fundamental iluminando e animando o caminhar. Os cristãos devem se unir, superando interesses mesquinhos ou corporativistas, para serem reconhecidos como autênticos discípulos de Cristo pela vivência do amor fraterno e solidário.
