Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)
Entre os dias 24 e 26 de fevereiro, participei, na Cidade do México, do Congresso Guadalupano, que reuniu bispos, assessores e assessoras de toda a América Latina para refletir sobre a preparação do Jubileu dos 500 anos das aparições de Nossa Senhora de Guadalupe, a serem celebrados em 2031. Foram dias de profunda comunhão e discernimento pastoral sobre como anunciar ao mundo de hoje a dimensão universal do acontecimento guadalupano.
Guadalupe não é apenas uma devoção mexicana nem um fato do passado. É um acontecimento teológico vivo. No Tepeyac, a colina onde ocorreram as aparições de Nossa Senhora de Guadalupe ao indígena Juan Diego, Deus falou a língua do povo por meio de sinais e símbolos compreensíveis aos mais simples. Ali, o céu tocou a terra com ternura materna. Por isso, Guadalupe continua interpelando crentes e não crentes, artistas e cientistas, pois toca aquilo que é universal na condição humana: o sofrimento, a busca de sentido, o desejo de consolo e o fascínio diante do mistério.
O primeiro eixo é irrenunciável: Guadalupe é essencialmente cristocêntrica. Maria não ocupa o lugar de Cristo; ela conduz a Ele. Como em Caná, repete: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Cristo é o centro; Maria, a mediação; a humanidade, a destinatária. Em Guadalupe, o verdadeiro Deus por quem se vive revela-se como proximidade e misericórdia.
Num contexto marcado por sacrifícios humanos, o acontecimento guadalupano anuncia uma ruptura decisiva: já não é o ser humano que se sacrifica para sustentar o mundo; é Deus quem, em Cristo, oferece a si mesmo para salvar a humanidade. O sacrifício cristão não é violência, mas dom; não é destruição, mas amor que se entrega. Assim, Guadalupe desautoriza toda religião que legitima a morte em nome de Deus e proclama que a vida se sustenta na misericórdia.
Outro aspecto decisivo é a opção amorosa de Deus pelos pobres. Maria aparece a Juan Diego, um indígena simples e invisibilizado. Deus começa pelas periferias. Fala a partir da cultura do povo, assumindo seus símbolos e purificando-os à luz do Evangelho. Aqui encontramos uma chave para a evangelização contemporânea: Deus não destrói as culturas, mas as redime desde dentro.
A “casita sagrada”, pedida por Maria, é imagem da Igreja chamada a ser casa de misericórdia: lugar de acolhida, consolo e cuidado. “Não estou eu aqui que sou tua mãe?” — esta palavra permanece atual. Não elimina o sofrimento, mas garante presença. Diante das dores do nosso tempo, Guadalupe recorda que ninguém está sozinho.
O Congresso reafirmou que o acontecimento guadalupano é um verdadeiro Evangelho para o nosso tempo: um anúncio de que a beleza pode evangelizar, de que fé e razão não se opõem, de que o mistério permanece aberto e de que o amor se inclina sobre os pobres. Preparar o Jubileu de 2031 é renovar esse anúncio para toda a humanidade: Deus continua falando com ternura, e a misericórdia é mais forte que toda violência.
