Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO) 

 

Às mulheres, maioria da humanidade, que ainda não ocupam plenamente os espaços que ajudam a sustentar todos os dias. Este é um dado que incomoda e, justamente por isso, precisa ser repetido que, em muitas partes do mundo, e também entre nós, a presença feminina continua mais visível no esforço do que no reconhecimento, mais constante no cuidado do que na decisão. 

Os avanços são reais, preciosos, irreversíveis. Mas conquistas formais não encerram processos. Há desigualdades que se deslocam de lugar, violências que mudam de nome, invisibilidades que se refinam. O caminho da dignidade feminina não está interrompido, mas também não está concluído. 

Basta olhar com atenção para perceber que as mulheres são maioria nas comunidades de fé, maioria nas salas de aula da educação básica, maioria entre aqueles que sustentam o cotidiano das famílias. No entanto, essa presença abundante não se traduz em participação proporcional nos espaços de decisão, de formulação e de reconhecimento público.  

Celebrar o Dia da Mulher como caminho ainda a ser feito exige superar dois empobrecimentos frequentes. O primeiro é o da indiferença confortável, que supõe que tudo já está resolvido. O segundo é o da polarização estéril, que transforma a justa busca por dignidade em campo de antagonismos permanentes. O futuro pede mais fineza espiritual e mais inteligência histórica. Pede a coragem de reconhecer feridas e a sabedoria de construir soluções. 

Sigamos, então, não apenas na descrição das feridas, mas na coragem de imaginar caminhos de cura, pois, a maturidade de uma sociedade mede-se também pela qualidade de suas soluções. 

Durante muito tempo, contentamo-nos em afirmar o direito das mulheres de concorrer, de participar, de estar presentes. Esse foi um passo necessário, e continua sendo um marco importante. Mas o direito de competir, por si só, não corrige desigualdades estruturais que se sedimentaram ao longo de séculos. 

Se a humanidade é composta, em sua maioria, por mulheres, torna-se razoável perguntar se nossas estruturas de poder refletem essa realidade ou se ainda carregam, por inércia social, um desenho que já não corresponde ao mundo que desejamos? 

Nesse horizonte, ganha força a ideia de uma via mais equilibrada para o exercício do poder público. Não apenas garantir o direito de concorrer, mas criar condições reais para que a presença feminina se torne estrutural e estável. Fala-se, com crescente seriedade, da reserva de metade dos espaços de representação no legislativo, no judiciário, nos altos cargos de gestão pública reservadas às mulheres como expressão concreta de corresponsabilidade humana. 

A experiência cristã oferece uma chave preciosa. Nos evangelhos, a presença das mulheres não aparece como concessão tardia, mas como parte constitutiva do caminho de Jesus. Elas acompanham, sustentam, permanecem. Estão aos pés da cruz quando muitos se dispersam. Estão diante do sepulcro quando a esperança é suspensa. Estão no cenáculo quando a Igreja nasce. 

Quando olhamos novamente para Maria Madalena, vemos, além da primeira testemunha da Ressurreição, uma mulher a quem foi confiada à missão de anunciar que Jesus estava vivo. Quando contemplamos Maria de Nazaré, percebemos que o sim mais decisivo deste mundo foi pronunciado por uma mulher. 

Nada disso foi acidental. O Dia da Mulher, portanto, não é apenas memória social ou reconhecimento civil. Ele pode tornar-se também um exame de consciência coletivo para corrigir caminhos que ainda confundem presença com protagonismo e colaboração com participação real? 

O 8 de março, celebrado, convida-nos a passar de uma cultura de concessões para uma cultura de corresponsabilidade; de uma presença tolerada para uma participação estrutural; de uma igualdade proclamada para uma igualdade cuidadosamente construída. 

O caminho ainda está diante de nós e precisamos percorrê-lo com inteligência institucional, sensibilidade e firme compromisso com a dignidade de todas as mulheres, a parte melhor de nossa humanidade. 

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