Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)
Com alegria e esperança, celebramos, nestes dias, o Mistério Pascal da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, centralidade de nossa fé. A cada ano, a Liturgia da Igreja perpetua este mistério fundamental, que se atualiza na história, ressignificando nossas vidas e a realidade de todo o cosmos. Em Jesus Cristo crucificado-ressuscitado, todas as coisas ganham novo significado. A luz da Ressurreição perpassa as mais densas trevas para levar a todas as pessoas o esplendor da vida nova.
Jesus ressuscitado é luz que ilumina o sentido da vida humana. Luz que clareia o horizonte da esperança que não decepciona (cf. Rm 5,5). Em meio às trevas da noite escura de nossa existência, a luz brilha e aquece os corações aquebrantados. Na realidade da ressurreição de Jesus Cristo, nos despertamos para o sentido da ressurreição de cada ser humano. A ressurreição de Jesus é nossa esperança de ressurreição não somente no espírito, mas também na carne, como professamos no Símbolo de Fé: “Creio na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém”.
Qual é o sentido dessa nossa afirmação de fé: “Creio na ressurreição da carne”? Quais são as implicações da nossa fé “na vida eterna”? A fonte da nossa fé é Jesus Cristo e a fonte da ressurreição da carne não poderia estar distante daquele que ressuscitou para a nossa salvação (cf. Rm 4,25). Buscamos inspiração no grande debate ocorrido no século II sobre matéria e espírito, no contexto da onda do gnosticismo, que colocou em grande risco o cristianismo nascente, para compreendermos o sentido da ressurreição da carne.
Os cristãos do século II travaram intensos debates sobre a origem da matéria, com sérias consequências sobre a corporeidade humana. Se a matéria é má e deve ser anulada, como sustentavam os gnósticos, de acordo com informação fornecida por S. Irineu de Lião (cf. Adv. haer., I, 2,2-3), a salvação refere-se somente a uma dimensão espiritual, etérea. Aqui, a compreensão das origens se destina a consequências escatológicas. Antropologia e cristologia se tocam na busca de compreensão salvífica. A grande questão que se impôs foi a relação corporeidade e espírito, na completude do ser humano.
Irineu deLiãoensinou que a matéria é boa porque provém de um único Deus que criou todas as coisas (cf. Adv. haer., II, 28,7). Encarnando-se, o Verbo de Deus assumiu a condição humana para elevá-la à condição divina. Unindo-se à natureza humana, ele, que era filho de Deus por natureza, concede ao ser humano a filiação divina adotiva (cf. Adv. haer., III, 19,1). Pelo banho batismal, o ser humano é inserido nesta nova condição. Alimentado pela Eucaristia, na vida da Igreja e no pleno exercício de sua liberdade, o ser humano avança no seu progresso para viver a vida nova, na imortalidade e incorruptibilidade. A plenitude desta vida nova se dará com a ressurreição da carne.
Sem perder sua identidade, o ser humano perfeito, partícipe da filiação adotiva, experienciando a incorruptibilidade e a imortalidade, inteiramente ressuscitado para a plenitude da vida, encontra-se capacitado a entrar na visão de Deus. Ele contemplará a Deus com seus sentidos e participará de sua plena comunhão. Longe de ser uma desintegração de sua identidade, a vida eterna será sua plena humanização. Ele não deixará de ser humano para se tornar divino, mas terá sua humanidade elevada à mais sublime dignidade na comunhão com Deus.
O Papa Francisco nos alertou sobre o risco de um neognosticismo. Na sua Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, Francisco nos ensinou que os gnósticos “concebem uma mente sem encarnação, incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros, engessada em uma enciclopédia de abstrações” (GE, 37). Continua Francisco: “o gnosticismo, por sua natureza, quer domesticar o mistério, tanto o mistério de Deus e da sua graça, como o mistério da vida dos outros” (GE, 40).
No longo percurso da peregrinação na esperança, plenificando o ser humano em sua jornada de progresso desde a origem até a consumação da história, Deus se apresenta como parceiro do ser humano. A economia salvífica faz resplandecer o progressivo e incansável esforço de Deus por salvar sua criatura, não apenas fazendo-a superar sua condição de pecado, mas também de finitude, mortalidade e corruptibilidade. Deus concede à sua criatura todas as condições necessárias para que ela se desenvolva até atingir a vida plena, mantendo sua identidade de pessoa humana.
Assim como Jesus Cristo foi ressuscitado dos mortos pelo Pai, assumindo a sua mesma corporeidade, de forma transfigurada, plenificada e gloriosa, também nós temos a esperança de participar da “Ressurreição da Carne”, como professamos no Símbolo da Fé. Aí, sim, nossa corporeidade estará plenificada, em comunhão com Deus, para uma eternidade sem fim. Jesus foi a primícia dos que adormeceram (cf. 1Cor 15,20). “…em Cristo todos serão vivificados. Cada qual, porém, na sua ordem: como o primeiro, Cristo; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião de sua vinda” (1Cor 15,22b-23).
Daí se denota a altíssima dignidade do ser humano. Criado à imagem e semelhança de Deus e sustentado por sua graça, o ser humano tem destinação divina. Ele é chamado a entrar na comunhão plena com Deus, recebendo, pela ressurreição da carne, nova corporeidade para a vida eterna. É preciso reconhecer essa altíssima dignidade da pessoa em todas as suas dimensões. Continuando com as inspirações de S. Irineu de Lião, o ser humano perfeito é “composição e união da alma que recebe o Espírito do Pai e está unida à carne, plasmada segundo a imagem do Pai” (Adv. haer., V, 6,1). E é justamente isso que vai permanecer quando formos ao encontro do Criador. Portanto, valorizemos o ser humano, especialmente aqueles cuja completa dignidade não é reconhecida. Esta nossa vocação sublime nos foi revelada pelo Verbo da Vida (GS, 22), que “veio morar entre nós” (Jo 1,14).
É nossa missão de seguidores do Crucificado-ressuscitado lutar para garantir vida e dignidade para todas as pessoas. Pensemos nos mais fragilizados, que não têm ninguém por eles… aqueles que se encontram sem teto e sem moradia digna, sem reconhecimento de seus direitos de cidadãos, que veem seus territórios sendo invadidos, que sentem suas tradições e culturas sendo espezinhadas, suas condições de sobrevivência ameaçadas… É missão de todos nós gerar vida, esperança e alegria para nossos povos, fazendo reconhecer sua altíssima dignidade humana, que um dia será elevada à plena comunhão com Deus, “na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém!”
