Jesus, o Bom Pastor, a porta que nos leva para o céu! 

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) 

 

Neste clima de profunda alegria pascal que ainda ilumina os nossos corações, a liturgia da Igreja nos conduz hoje ao 4º Domingo da Páscoa, tradicionalmente e afetuosamente conhecido por todos nós como o “Domingo do Bom Pastor”. É também o dia em que, em união com o Santo Padre, o Papa Leão, e com toda a Igreja espalhada pelo mundo, celebramos o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Como é reconfortante para nós, que caminhamos tantas vezes em meio às turbulências deste mundo e aos desafios da nossa grande cidade, ouvir a voz do Senhor que nos garante o seu cuidado amoroso e paternal. 

A Palavra de Deus que nos é proposta neste Ano A nos convida a uma reflexão profunda sobre a identidade de Jesus e, consequentemente, sobre a nossa própria identidade como seu rebanho. O Evangelho de São João (Jo 10, 1-10) nos apresenta Jesus utilizando uma imagem muito familiar para o povo da sua época, mas que carrega uma densidade teológica e pastoral imensa para nós hoje. Curiosamente, antes mesmo de se apresentar diretamente como o Pastor, Jesus se apresenta como a “porta”. Ele nos diz com clareza: “Em verdade, em verdade vos digo: eu sou a porta das ovelhas” (Jo 10, 7). 

O que significa Jesus ser a porta? Em nossos dias, as portas muitas vezes representam barreiras, sistemas de segurança, fechaduras e grades que nos isolam por medo da violência urbana e da insegurança que, infelizmente, marcam a realidade de nossa metrópole. Mas a porta que é Cristo tem um sentido oposto: ela não é para nos trancafiar no medo, mas para nos dar o verdadeiro acesso à liberdade e à salvação. Jesus afirma: “Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem” (Jo 10, 9). Entrar por esta porta é aderir à pessoa de Jesus, é assumir o Seu projeto de amor. É deixar para trás as portas largas do egoísmo, do consumismo e da indiferença que o mundo nos oferece e que, no fim, levam apenas ao vazio. 

O Senhor nos adverte no mesmo Evangelho sobre os ladrões e assaltantes, aqueles que não entram pela porta, mas pulam o muro. Quantas vozes, hoje em dia, tentam roubar a esperança do nosso povo? Quantos “falsos pastores” – na forma de ideologias vazias, de promessas de felicidade fácil, de ídolos do poder e do dinheiro – tentam arrancar as ovelhas do redil de Cristo? O ladrão, adverte o Senhor, “só vem para roubar, matar e destruir” (Jo 10, 10a). Nós vemos, com dor no coração de pastor, o estrago causado por esses “ladrões” em nossa sociedade: famílias destruídas, jovens perdidos no abismo das drogas, a banalização da vida, a violência que ceifa vidas inocentes em nossas ruas. Mas a resposta de Jesus é contundente e enche a nossa Arquidiocese de esperança: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10, 10b). 

Para termos acesso a essa vida em abundância, precisamos reconhecer que, muitas vezes, fomos nós que nos afastamos da porta. A Segunda Leitura de hoje, extraída da Primeira Carta de São Pedro (1Pd 2, 20b-25), nos recorda a nossa condição e o imenso sacrifício do amor de Cristo por nós. O Apóstolo nos diz: “Carregou os nossos pecados em seu próprio corpo, sobre a cruz, a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça” (1Pd 2, 24). E completa com uma imagem tocante: “Andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda de vossas vidas” (1Pd 2, 25). 

Esta é a grande mensagem de misericórdia deste domingo. Não importa quão longe tenhamos andado, não importa se nos sentimos perdidos nas “periferias existenciais” e geográficas de nossa cidade. O Pastor entregou a sua vida por nós e nos chama pelo nome. E as ovelhas, diz o Evangelho, reconhecem a sua voz. Reconhecer a voz do Pastor em meio ao barulho ensurdecedor do mundo atual exige intimidade, exige oração, exige a vivência dos sacramentos e a escuta atenta da Palavra de Deus nas nossas comunidades paroquiais. 

Essa escuta atenta gera uma mudança de vida. É o que vemos na Primeira Leitura, dos Atos dos Apóstolos (At 2, 14a. 36-41). Após ouvirem o primeiro grande discurso de Pedro, no dia de Pentecostes, os corações dos ouvintes foram compungidos e eles perguntaram: “Que devemos fazer, irmãos?”. E a resposta de Pedro ecoa hoje para nós: “Convertei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para o perdão dos vossos pecados” (At 2, 38). A conversão não é um ato isolado do passado, mas um retorno diário e constante aos braços do Bom Pastor. É o esforço contínuo de fazer com que a nossa vida, as nossas atitudes, a nossa ética de trabalho e o nosso convívio familiar sejam reflexos do amor de Cristo. 

Neste Dia Mundial de Oração pelas Vocações, o meu coração de Arcebispo se volta com muito carinho para todos vocês, mas de modo muito especial para a nossa juventude. Precisamos de pastores segundo o coração de Deus! Convido toda a nossa Igreja a rezar intensamente para que o Senhor da messe envie operários. Rezemos pelos nossos padres, que gastam a vida em nossas paróquias e favelas, sendo sinais do Bom Pastor. Rezemos pelos religiosos e religiosas. E rezemos também por todos os cristãos leigos e leigas, para que assumam sua vocação matrimonial e sua missão de ser “sal da terra e luz do mundo” nos diversos ambientes de nossa sociedade, promovendo a cultura do encontro e da paz. 

Que Maria, a Mãe do Bom Pastor, aquela que perfeitamente escutou a voz do seu Senhor e a guardou no coração, interceda por todos nós. Que São Sebastião, padroeiro de nossa cidade e Arquidiocese, nos inspire a sermos fiéis até o fim. Caminhemos unidos, irmãos e irmãs, entrando pela Porta que é Cristo, seguros de que n’Ele encontramos a vida que não passa. 

 

 

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