A Santíssima Trindade em nós e na igreja antiga

Dom Vital Corbellini
Bispo de Marabá (PA)

   

Nós acreditamos em Deus Uno e Trino sendo a fonte de vida para nós, para todas as pessoas que vivem neste mundo e um dia na eternidade. É o mistério dos mistérios que engloba toda a nossa existência e na qual tudo começa e termina em Deus que é Pai e é Filho e é Espírito Santo. Não se trata de três deuses mas de um único Deus em três Pessoas. Nós somos chamados a adorar o Deus que é Uno e é Trino. Vejamos a seguir como foi percebido a fé em Deus Uno e Trino nos primeiros séculos do cristianismo.  

O batismo em nome da Santíssima Trindade 

Um dos primeiros documentos que fala da Santíssima Trindade é a Didaqué, Doutrina dos Doze Apóstolos escrita nos primeiros séculos do cristianismo afirmava que o batismo deveria decorrer com a água corrente em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. O ministro derramaria três vezes água sobre a cabeça em nome da Santíssima Trindade1 

A sucessão apostólica ligada ao Deus Uno e Trino

São Clemente Romano, bispo de Roma, no final do primeiro século afirmava que os apóstolos receberam do Senhor Jesus Cristo, o Evangelho do qual pregaram com amor. Jesus Cristo foi enviando por Deus; Ele veio  d´Ele e os apóstolos vem de Jesus Cristo. Tudo provêm da Vontade de Deus. Os apóstolos receberam instruções e por causa da ressurreição de Jesus Cristo, fortificados pela Palavra de Deus e com a plena certeza dada pelo Espírito Santo, saíram anunciando que o Reino de Deus chegou por Jesus Cristo à humanidade2.   

A comunidade crê na Santíssima Trindade

Santo Inácio de Antioquia, bispo no final dos séculos I e início do século II, afirmou a importância da comunidade à fé trinitária diante das doutrinas contrárias ao Senhor Jesus Cristo. O bispo ao dirigir-se à comunidade de Efésios afirmou que as pessoas cristãs são templo do Pai, preparadas para a construção de Deus Pai, levantadas até o alto pela alavanca de Jesus Cristo, que foi a cruz, usando a corda, que é o Espírito Santo. A fé na Trindade é o guindaste, o caminho que leva até Deus e à comunidade que acredita nele3. 

A oração trinitária de São Policarpo, mártir

São Policarpo deu a sua vida pelo Senhor, em idade bem avançada. Foi fiel a Ele pelo martírio do qual derramou como o Senhor o seu sangue. Antes de ser queimado vivo proferiu ele uma oração bonita, expressiva voltando-se à Trindade. Ele invocou o Senhor, Deus todo-poderoso, Pai do Filho amado e bendito, Jesus Cristo, pelo qual as pessoas recebem o conhecimento do nome de Deus verdadeiro. Ele bendizia ao Senhor por ter sido julgado digno daquele dia e daquela hora, de tomar parte entre os mártires e do cálice do Cristo, para a ressurreição da vida eterna da alma e do corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo4. O mártir tinha presente o Pai e o Filho e o Espírito Santo.  

A confissão dos cristãos

Aristides de Atenas, apologista afirmou a confissão dos cristãos diante das autoridades e do povo pagão. Eles descendiam do Senhor Jesus Cristo, sendo confessado como Filho do Deus Altíssimo no Espírito Santo, descido do céu para a salvação das pessoas humanas. Ele foi gerado de uma Virgem santa, encarnou-se e apareceu aos seres humanos para afastá-los do erro do politeísmo5. 

O batismo em nome da Santíssima Trindade

São Justino de Roma, afirmou que o batismo dos catecúmenos, adultos, era feito em nome da Santíssima Trindade. As pessoas eram conduzidas a um lugar onde havia água e pelo mesmo banho que eles tinham recebido pois este era dado em vista do banho de regeneração, tomando da água o banho em nome de Deus, Pai, Soberano do Universo e de nosso Salvador Jesus Cristo e do Espírito Santo6. 

A manifestação do mistério de Deus Uno e Trino

Santo Ireneu de Lião afirmou o mistério do Deus Uno e Trino e a sua manifestação ao mundo. Seguindo a palavra de Deus no Apóstolo Paulo disse que este se manifestou “um só Pai que é sobre todos, por meio de todos e em todos” (Ef 4,6). O bispo de Lião disse que quem está sobre todos, é o Pai e Ele que é a cabeça de Cristo: por meio de todos, há o Verbo que é a cabeça da Igreja: em todos, há o Espírito Santo e Ele é a água viva que o Senhor dá às pessoas que acreditam na retidão das coisas e das obras 

A fé no Deus Uno e Trino

Tertuliano aprofundou o mistério de Deus Uno e Trino, a sua fé, de modo que a Igreja tomou muito deste autor que colocou as bases de Deus Uno e Trino. Contra Práxeas que negava as Pessoas divinas, Tertuliano disse que é impossível acreditar em um só Deus, se não é também o Pai e o Filho e o Espírito Santo. Tudo deriva da unidade, pela unidade evidentemente da substância divina, tendo presente também a economia que dispõe a unidade na Trindade, prescrevendo o Pai e o Filho e o Espírito Santo como Três Pessoas. O Padre Africano especificou melhor este mistério afirmando três não pela natureza mas pelo grau, não pela substância, mas pela forma, não pela potência, poder, mas pela especificidade, de uma só substância, de uma só existência, de uma só potência, poder, porque Deus é único e derivando Dele estes graus, formas e especificidades são distribuídas nas Pessoas do Pai e do Filho e do Espírito Santo, os quais admitem a pluralidade sem divisões mas são unidas na mesma substância divina. 

Nós somos chamados a adorar o mistério de Deus Uno e Trino em nossas vidas, comunidades para viver a unidade na diversidade na vida familiar, comunitária e social, realizando obras de caridade neste mundo para um dia participarmos do Reino dos céus.  

 

 

  

 

 

  

 

  

Tags:

leia também