Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)
Começou como uma provocação – simples, quase despretensiosa – mas carregada de uma beleza que não se deixa ignorar. Por uma dessas delicadas providências que Deus permite nos dias de descanso, caiu-me às mãos um poema de um jovem poeta.
Li-o sem pressa. E, à medida que avançava, fui tomado por um certo espanto interior, como quem percebe que algo profundamente verdadeiro acaba de ser dito com uma simplicidade desarmante.
Ele falava da saudade não como ausência que pesa, mas como presença que permanece: “Talvez a saudade não seja apenas ausência; talvez seja, na verdade, uma forma delicada de presença. Porque só sente saudade quem carrega o outro dentro de si. A distância, então, não apaga o vínculo; ao contrário, revela o quanto aquela presença se tornou parte da própria vida”. E, naquele instante, ecoou em mim a conhecida intuição de Rubem Alves: “a saudade é a presença de uma ausência”. Já não se tratava de um conceito, mas de uma experiência viva, quase palpável.
Confesso que, por um momento, pensei estar diante de uma releitura contemporânea de Carlos Drummond de Andrade. Recordei-me de seu poema Ausência, quando afirma que a ausência não é falta, mas um “estar em mim”. Aquilo que, à primeira vista, parece perda, revela-se, na verdade, uma forma mais profunda de presença, uma presença interiorizada, transformada, amadurecida.
Foi exatamente isso que aquele poeta, com surpreendente sensibilidade, conseguiu expressar: só sente saudade quem carrega o outro dentro de si. A distância, portanto, não rompe; revela. Não esvazia; densifica. Não apaga; ilumina.
Há, nesse ponto, algo que ultrapassa a psicologia do afeto; algo de universal, que toca o mistério da própria condição humana. A saudade não se explica plenamente, porque pertence à ordem do amor, do afeto, das relações de amizade, dos laços familiares e das ligações à terra, à pátria, ao lugar. E o amor, quando verdadeiro, não se submete às medidas do tempo nem às limitações do espaço. Ele permanece. Ele atravessa. Ele habita.
Talvez por isso a saudade, embora às vezes cause melancolia, não seja apenas tristeza. Ela é também gratidão, porque revela que algo, ou alguém, marcou a nossa história de modo indelével. Só sente saudade quem ama ou quem amou, quem se afeiçoou, quem se ligou afetivamente a alguém ou a algo. E, nesse sentido, a saudade é quase um sacramento da memória, na medida em que torna presente aquilo que não queremos e nem podemos perder.
Ao terminar a leitura, fiquei em silêncio. Não um silêncio vazio, mas um silêncio pleno de sentido; cheio de reconhecimento, de reverência e, ouso dizer, de consolação. Porque percebi que a saudade, longe de ser um peso a ser eliminado, é um dom a ser acolhido.
Vivemos, muitas vezes, tentando fugir dela, como se fosse sinal de fragilidade. No entanto, talvez seja exatamente o contrário: a saudade é sinal de que o coração está vivo, capaz de guardar, de amar e de permanecer fiel.
Ao leitor, deixo então esta simples convicção: não tenha medo da saudade! Acolha-a! Escute o que ela lhe diz! Nela pode haver dor, mas há também uma misteriosa forma de presença que sustenta, ilumina e, de certo modo, eterniza aquilo que foi vivido e experimentado como puro presente de Deus. No fim, talvez reste apenas isso e já é tudo, como sentir, guardar… e agradecer.
