Ausência de paz e pluralismo religioso foram apontados pelos bispos como desafios centrais no Brasil

A coletiva de imprensa realizada nesta sexta-feira, 17 de abril, terceiro dia da 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, reuniu profissionais de comunicação no Centro de Eventos Padre Vítor Coelho de Almeida, em Aparecida (SP). Participaram da coletiva dom Francisco Lima, bispo da diocese de Carolina (MA) e coordenador do Grupo de Análise de Conjuntura Social, e dom Joel Amado, bispo da diocese de Petrópolis (RJ) e presidente da Comissão para a Doutrina da Fé da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Logo no início, dom Francisco destacou que a falta de paz tem marcado profundamente o cenário contemporâneo, sendo um dos principais eixos da análise de 2026. “A análise de conjuntura social deste ano fez menção ao que o mundo moderno, ou dito pós-moderno, tem provocado no coração da humanidade: a ausência de paz.

Como em períodos da Antiguidade e da Idade Média, hoje recorrentemente encontramos essa ausência”, afirmou. Ele ressaltou que o estudo também abordou temas como meio ambiente, violência nas grandes cidades e o papel do cristão diante dessa realidade, reiterando que “a guerra não pode ser a solução, nem fazer com que a humanidade volte a um estado de todos contra todos”, disse.

Ao responder sobre o fenômeno das guerras na atualidade, dom Francisco apontou para uma crise da racionalidade moderna. “A ciência e a tecnologia, que vieram para ser instrumentos de construção do futuro, tornaram-se, em certa medida, instrumentos de sua destruição. O ser humano não conseguiu elaborar critérios para viver em paz”, disse. Segundo o prelado, fatores econômicos e geopolíticos intensificam esse cenário, gerando medo global e polarizações. “Hoje, os países vivem sob a égide do medo, e blocos de poder acabam influenciando até mesmo as micro realidades”, completou, reforçando que a missão da Igreja é promover a reconciliação, o perdão e a paz.

Redes socias não substituem vida comunitária

Dom Joel Amado apresenta pontos da análise eclesial. Fotos: Adielson Agrelos – Comunicação 62ª AG CNBB.

Apresentando a análise de conjuntura eclesial, dom Joel Amado explicou que “a análise teve uma finalidade muito concreta: ajudar a entender por que as diretrizes são como são e por que fazemos determinadas opções pastorais”, afirmou.

Ele destacou que o Brasil não se tornou menos religioso, como se previa, mas “tornou-se pluralmente religioso”, com múltiplas expressões de fé e grande mobilidade entre elas. “As pessoas circulam entre religiões e também vão compondo suas próprias experiências religiosas, em um contexto de altíssima individualização”, acrescentou.

Ao abordar a evangelização no ambiente digital, dom Joel reconheceu a relevância do ciberespaço, mas fez um alerta. “Não há como negar o espaço digital, mas a fé precisa se fazer presença: o Verbo se fez carne, Cristo se fez convívio”, disse. De acordo com ele, as redes sociais podem suscitar identidade e comunicação, mas não substituem a vida comunitária. “É preciso ir à comunidade, viver a Palavra de Deus, conviver com os irmãos e fazer o discernimento do Espírito, aprendendo o jeito de Jesus ser”, afirmou, destacando que o desafio é evitar uma fé superficial.

Dom Joel também chamou atenção para a atual “policrise” vivida pela sociedade, especialmente no campo das relações humanas. “Vivemos uma crise de vínculos, de afetos e de fraternidade. Em um mundo marcado pela individualização, o enfraquecimento desses laços pode levar ao desespero”, afirmou. Ele ressaltou que o fortalecimento da experiência comunitária é essencial para enfrentar tanto a desinformação quanto as crises existenciais, destacando ainda a realidade dos jovens que creem em Deus, mas sem vínculo eclesial: “não basta esperar que venham; é preciso ir ao encontro deles”, afirmou.

No encerramento, os bispos convergiram ao apontar o papel da Igreja diante dos desafios contemporâneos. Dom Francisco reafirmou a missão de promover a paz e superar polarizações, enquanto dom Joel destacou a necessidade de uma Igreja que, inserida em um mundo plural, mantenha sua identidade e saiba dialogar. Ambos reforçaram a esperança de que, mesmo em meio às crises, seja possível construir caminhos de comunhão, fé madura e compromisso com o Evangelho.

Por Sara Gomes

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