Missão e educação 

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)

 

 

A missão da Igreja continua a missão dos Apóstolos que, por sua vez, continua a missão de Jesus Cristo. Assim, a missionariedade da Igreja é sua característica fundamental. Para isso, Jesus fundou e enviou a Igreja, para ser testemunha do Evangelho até os confins do mundo: “Ide pelo mundo inteiro e pregai o Evangelho” (Mc 16,15). Desde aquele envio do Mestre, não paramos de seguir os passos dos Apóstolos, levando a Boa Notícia do Reino de Deus a todos os povos e promovendo vida para todos. 

Foi com este espírito missionário que as Irmãs Franciscanas Penitentes Recoletinas atenderam o convite de Dom Serafim Gomes Jardim, primeiro bispo da Diocese de Araçuaí, e seu Vigário Geral, Frei José de Haas, que, anos depois, seria o seu sucessor naquela Cátedra Apostólica e que tinha uma irmã de sangue na Congregação. O ideal originário, pensado pela fundadora, Ir. Joana de Jesus, era “viver num profundo espírito de contemplação, penitência e recolhimento, atentas aos apelos da realidade através dos constantes pedidos de oração”. De repente, descortinou-se um horizonte missionário, já latente no espírito da Congregação. 

Era o dia 23 de abril de 1926, quando as Irmãs chegaram na “Terra das araras grandes”. A longa viagem fora empreendida de navio desde o dia 9 de março, quando saíram do porto de Amsterdã, na Holanda, com destino ao Rio de Janeiro. Depois viajaram em um navio costeiro até Vitória, no Espírito Santo, onde descansaram por um dia. A viagem seguiu ainda no mesmo navio costeiro até Caravelas na Bahia, e lá embarcaram de trem, pela antiga estrada de ferro Bahia-Minas. Tendo chegado em Teófilo Otoni, permaneceram lá por alguns dias, por causa das chuvas. Retomaram a viagem de trem até Queixada e, dali, seguiram em lombos de animais até Araçuaí. Itinerário digno das grandes viagens missionárias como aquelas de São Paulo e tantos outros apóstolos, missionários e missionárias. Imaginemos o choque cultural que essas valorosas missionárias tiveram: aprender uma língua muito diferente, os hábitos de alimentação e higiene de uma cultura tão distante do país de origem, e, ainda, manter o ardor missionário, mesmo longe de suas realidades e pessoas do convívio familiar e religioso… 

Logo que chegaram ao destino da viagem, começaram a colocar em prática o projeto educacional, fundando o Colégio Nazareth. No mês seguinte, iniciaram as aulas, com poucas alunas. Um ano depois começaram o sistema de internato, estendendo o atendimento a estudantes da região. A atuação das Irmãs foi primordial para a relevância do ensino e da cultura no Nordeste do Estado de Minas Gerais e consequente evangelização na região. Cem anos se passaram desde a chegada das Irmãs Boavida, Amália, Guilhermina, Beatriz, Aquilina e Angélica. Quantas pessoas passaram por este Colégio! Quantas vocações aqui foram colhidas! O serviço da educação tem sido verdadeira ação missionária. 

O querido Papa Leão nos ensina que “a educação não mede seu valor apenas pelo eixo da eficiência: ela o mede pela dignidade, pela justiça e pela capacidade de servir ao bem comum”. Com essas palavras, na sua Carta Apostólica “Desenhar novos mapas de esperança”, de 27 de outubro, por ocasião do sexagésimo aniversário da Declaração Conciliar Gravissimum Educationis, o Papa nos incentiva a fortalecer e animar a missão educativa da Igreja. Continua ele: “O desejo e o coração não devem ser separados do conhecimento: isso significaria quebrar a pessoa. A universidade e a escola católica são lugares onde as perguntas não são silenciadas e a dúvida não é banida, mas sim acompanhada”. A educação católica não se resume a um espaço de transmissão de conhecimentos, mas “tem a tarefa – alerta o Papa – de reconstruir a confiança num mundo marcado por conflitos e pelo medo, lembrando que somos filhos, não órfãos: dessa consciência nasce a fraternidade”. 

Foi com essa vocação que se edificou e se consolidou o Colégio Nazareth. No decorrer destes cem anos, essa prestigiosa escola católica vem cumprindo sua missão de formar gerações, com valores éticos e evangélicos, para servir a humanidade, com a consciência de que somos todos irmãos e irmãs. Somente a educação de qualidade, baseada em princípios cristãos e a sensibilidade para com as pessoas que nos interpelam e o mundo que nos cerca, pode gerar a tão sonhada nova humanidade. 

A presença missionária das Irmãs Franciscanas não se limitou nos muros deste Colégio. Logo elas partiram em missão para visitar as famílias e as comunidades. A presença delas na Ação Social, junto aos idosos, enfermos, pessoas em situações especiais de vulnerabilidade, crianças e adolescentes são uma demonstração do carisma franciscano que inspirou a Congregação. 

Louvamos a Deus por tantas graças concedidas ao povo do nosso querido Vale do Jequitinhonha, através da presença das Irmãs Franciscanas Recoletinas e de tantos educadores de qualidade que fizeram a história de cem anos de dedicação e que legaram a esta nobre instituição de ensino lugar de excelência e referência para a educação no Nordeste do Estado de Minas Gerais. Em nome de tantas pessoas que foram beneficiadas por esse alto nível de formação humana e intelectual, agradecemos a cada irmã e a cada educador e educadora que por aqui passaram! 

O mundo continua a clamar por vida, por justiça, por solidariedade. Jesus continua a nos alertar para o seu ideal missionário: “para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). O Colégio Nazareth tem como inspiração uma das pessoas que mais se assemelharam a Jesus Cristo e seu projeto evangelizador, São Francisco de Assis. Celebramos neste ano o oitavo centenário de sua Páscoa definitiva, o seu trânsito, como é chamada a sua morte. Deste grande santo, recebemos três principais eixos que iluminam o horizonte sombrio da humanidade: o amor aos pobres, o desejo da paz e o cuidado com o mundo criado. Desejamos que o Colégio Nazareth fortaleça sua vocação e continue sua missão educadora no Vale do Jequitinhonha com esses três eixos imprescindíveis para formar novas gerações. 

Assim, poderemos continuar sonhando com um novo Vale do Jequitinhonha. É preciso continuar trabalhando para a superação da pobreza, especialmente a pobreza de caráter que a educação de qualidade pode transformar. É preciso persistir na construção da cultura da paz que supera toda a violência e desrespeito pela dignidade do ser humano. É preciso, ainda, trabalhar por uma educação que faça enxergar que vidas humanas importam e que o mundo criado não pode pagar o preço por um desenvolvimento que beneficia somente uma classe de abastados. A verdadeira educação nos faz enxergar o valor da vida humana, sua dignidade e o respeito pela ecologia integral. 

Como Jesus Cristo, o Colégio Nazareth tem a vocação de ser porta. Porta que se abre para um horizonte de libertação e de acesso à vida plena que somente o Bom Pastor pode proporcionar. Adentrando os umbrais de esperança desta casa edificada nesses cem anos, que a rica tradição e cultura do Vale do Jequitinhonha continue a ser valorizada; que os valores éticos e evangélicos continuem a ser respeitados e propagados; que os pobres sejam acolhidos e promovidos; que a paz seja edificada como fruto do amor e da justiça; e que a ecologia integral seja ensinada e propagada contra toda ganância e exploração das nossas riquezas naturais, dos nossos fecundos territórios e de nossa querida gente, maior riqueza do Vale do Jequitinhonha. 

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