Dom Pedro Carlos Cipollini
Bispo de Santo André (SP)
Vivemos uma mudança de época, na qual tudo multiplicam-se os conflitos. Os embates são frequentes. Um exemplo são as críticas que o presidente dos Estados Unidos fez ao papa Leão XIV. Irritado pela pregação do papa, em favor da paz, ele o criticou de forma contundente e desaforada ao seu estilo. O papa, no entanto, segue os ensinamentos de Jesus Cristo que recusou a violência como método de ação. Jesus ensinou que são “Bem-aventurados os que promovem a paz” (Mt 5,9).
O cristão combate o mal pelo bem. A lógica da violência e da guerra só destroem. Com a guerra todos perdem, ninguém ganha. A proposta de Jesus Cristo irrita os donos do poder que preferem a lei da selva: o mais forte manda, os outros obedecem. É a lei da força em detrimento da razão e da fraternidade.
Já vimos esse “filme” antes na história do século XVIII. O imperador da França, Napoleão Bonaparte, devastou a Europa com guerras sem fim. Confiscou os bens da Igreja e levou o papa prisioneiro para a França. O papa era submetido a constantes pressões para ceder à vontade do imperador. Devia estar subordinado, como instrumento a serviço do império napoleônico.
Muitos julgaram que o papado tinha chegado ao fim. Porém, a Igreja, sem exército para defender-se, rezava, e o papa invocava o auxílio de Nossa Senhora Auxiliadora dos cristãos. Em 1814 o imperador perde a batalha de Leipzig e parte para o exílio, no qual morre. O papa volta para Roma e continua a sua missão.
O argumento mais usado para calar a Igreja, submetê-la, e até expulsar a religião da sociedade é o “Estado laico”. A fé seria uma questão pessoal e privada, não devendo estar e nem se manifestar no espaço público. Contudo, isto não é “Estado laico”, é laicismo.
Infelizmente permanece até nas sociedades democráticas, expressões de laicismo intolerante, que hostilizam qualquer forma de relevância política e cultural da fé, a não ser que estejam submetidas aos caprichos de quem governa. Procura-se desqualificar o empenho social e político dos cristãos, porque se reconhecem nas verdades ensinadas pela Igreja e obedecem ao dever moral de ser coerentes com a própria consciência: chega-se até a negar a ética natural.
O papa Francisco, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 2013, disse que o Estado laico é aquele que, sem assumir como própria nenhuma posição confessional, respeita e valoriza a presença da dimensão religiosa na sociedade, favorecendo suas expressões mais concretas. O “Estado laico” longe de ser um “Estado ateu” – que nega a existência de Deus – protege a liberdade de consciência de crença de seus cidadãos, permitindo a coexistência de vários credos.
O falso Estado laico que temos, inclusive no Brasil, é taxativo ao afirmar que, esse Estado laico, mas na verdade laicista. Professa uma confessionalidade ideológica agnóstica, que ensina: “Quem tem convicção religiosa deve calar-se, quem é ateu ou agnóstico pode falar e impor-se aos outros. Assim, quem tem sempre razão é quem não tem religião e impõe o ateísmo como um dogma”.
Não é um Estado de Direito Laico, democrático e pluralista, aquele no qual somente os ateus e agnósticos têm direito de falar e modelar as leis, e governar segundo os seus princípios. Ou ainda o Estado que pretende calar a voz das religiões e seus líderes, quando se sente incomodado. E pior ainda: colocar as religiões a seu serviço.
A liberdade religiosa de a liberdade de expressão, são direitos universalmente reconhecidos.
