Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)
Vivemos numa nova realidade cultural desafiante. O que se convencionou chamar de Pós-modernidade, ou Alta Modernidade, é esta fase atual, que prossegue no subjetivismo desenvolvido pela Modernidade, mas rompe com o seu referencial de racionalidade para assumir a centralidade da emoção. Trata-se de um deslocamento da perspectiva racional para a emocional. Tudo passa, agora, pelo sentimento e pelas emoções mais profundas.
A terrível experiência dos campos de concentração nas dramáticas guerras mundiais e nos regimes que propagandeavam um mundo novo acabou por frustrar a esperança da humanidade. Assistimos, nesses últimos tempos, ao deslocamento dos projetos sociais para os projetos pessoais. O ser humano foi se fechando num eu narcísico, um eu mínimo, desencantado dos grandes projetos sociais e fascinado por si mesmo.
Diante da falência desses grandes projetos de transformação do ser humano e da sociedade, propostos pela razão moderna, houve uma mudança de paradigma. Alguns elementos que consolidavam a segurança da pessoa, como a tradição e a religião, foram desconstruídos pela importância do instante presente e pelo secularismo. Por outro lado, vai se configurando uma nova espécie de religiosidade, de cunho mais individualista, emocional, intimista e espetacular.
Fechado em si mesmo, sem horizonte de esperança, o ser humano experiencia um terrível vazio, no qual perde o sentido de sua própria existência. Busca preenchê-lo com as ofertas da sociedade consumista, mas permanece vazio. Procura satisfazer-se com o prazer, num frenético hedonismo, entretanto isso só o faz aprofundar-se no seu vazio. Lança-se no mundo das drogas para anestesiar-se, em vão… Acaba por experienciar estados depressivos terríveis. Depara-se com um eu frágil, quebradiço, sem gravidade, fluido. Assim, torna-se presa fácil de automutilações e até do autoextermínio.
Todas as propostas salvíficas que a cultura moderna apresentou à humanidade manifestaram-se insuficientes. Mesmo com os avanços da tecnologia, as iniciativas da psicologia e os novos sistemas da sociologia, o ser humano permanece necessitado de uma experiência mais profunda que o resgate dessa sua situação de vazio, angústia e terrível desolação. Fala-se em reinventar a humanidade. Numa cultura em prospectiva pós-humana é preciso edificar um novo humanismo.
É neste contexto que assistimos também ao deslocamento da ética à estética. Já que a ética expressava os projetos para a humanidade que se mostraram falidos ao longo da história moderna, o ser humano deslocou seu olhar para a estética. Assistimos a uma estetização de tudo, com o sério risco de renúncia à ética. No entanto é urgente resgatar o sentido da estética que se encaminha para o ético. Dostoievski afirmou que a beleza salvará o mundo. Como se interroga em sua obra “O Idiota”, mas que beleza salvará o mundo? Estética e ética não podem se divorciar. Ambas formam indispensável unidade para se consolidar o que é verdadeiramente humano.
O ser humano carece de um resgate e de uma experiência mais profunda da pessoa de Jesus Cristo, da força de seu Evangelho e da realização humana no seu seguimento. A ação salvífica de Jesus Cristo é capaz de resgatar o ser humano deste seu estado, porque o projeta à plenificação de seu ser, como realização de sua plena humanidade. Descobrindo esta vocação sublime, o ser humano é capaz de romper com seu estado narcísico para abrir-se ao outro, à compaixão, à solidariedade e à justiça, constituindo novas relações pautadas no amor, no respeito e no dom de si. Assim, será capaz de recobrar sua esperança de que um outro mundo é possível, até que se lance no mergulho da profundidade de Deus.
Segundo o Papa Francisco “devemos recordar sempre que não existe humanismo autêntico que não contemple o amor como vínculo entre os seres humanos, de natureza interpessoal, íntima, social, política ou intelectual. Sobre isto se funda a necessidade do diálogo e do encontro para construir juntamente com os outros a sociedade civil”. (Discurso, 10/11/2015). O amor é o diferencial diante das inovações da tecnologia e dos recursos da Inteligência Artificial.
O Papa Leão nos advertiu que o “poder técnico, se não for equilibrado, não nos torna mais capazes: torna-nos mais sós e mais expostos a lógicas de domínio e exclusão. Não se trata, evidentemente, de se opor à inteligência, mas de recordar que esta, quando se fecha em si mesma, esquece ter sido feita para servir a vida e a pessoa humana. (…) A tecnologia pode apoiar também o cuidado mútuo entre as pessoas, ao oferecer ferramentas que, por exemplo, ajudem a prever e a organizar, mas sem derrubar a liberdade e o discernimento do ser humano, sujeito das relações e responsável pelas decisões” (MH, 113.114).
Somos, assim, chamados a redescobrir a humanidade. Há algo de mais profundo que alimenta máquinas e tecnologias e que não é possível ser reproduzido artificialmente. Há uma mistura de sensibilidade e inteligência, liberdade e consciência, vontade e desejos que são naturais e característicos do ser humano. É essa humanidade que é preciso ser reinventada. Para isso é preciso ousar, “ousar para reinventar a humanidade”, como já preconizou Juvenal Arduini, na sua obra “Antropologia” (Paulus, 2002).
“O ser humano é projeto antropológico. Nasce iniciado, mas não concluído. Desenvolve-se gradativamente. Estrutura-se por escolhas livres e por ações pessoais. Em grande parte, o ser humano faz-se por si mesmo. É preciso conferir sentido ao existir. Enquanto projeto, o ser humano é chamado a superar ambiguidades, a escolher rumo construtivo, a definir a identidade pessoal, a autoprogramar-se e a optar pelas causas humanas substanciais”. (Arduini, p. 22).
